Os Loriguenses na Guerra do Ultramar


Na ideia de documentar-se um período da história de Portugal, que em certa forma, todas as famílias loriguenses a ela ficaram ligadas, vamos aqui registar os testemunhos em sínteses de relatos e registo, de todos esses loriguenses que passaram pela Guerra do Ultramar, período da nossa história que durou cerca de 15 anos de luta armada e que veio a culminar no desmoronamento do império português de colonização.
São testemunhos de uma geração loriguense que na idade mais importante das suas vidas, eram obrigados a lutar por uma causa, por simplesmente serem portugueses, que fazem parte também da história de Loriga, por isso, solicita-se a todos aqueles que queiram colaborar nesta ideia, fazerem chegar alguma da documentação mais relevante, para que assim fique para sempre registado na memória e para a posteridade, tendo ainda esta ideia como principal objectivo numa homenagem a todos aqueles loriguenses que viveram este período dificil da nossa história.
Na ideia e como objectividade, em que os relatos e registos aqui documentados se fixem na originalidade, serão também mencionados os alcunhas das pessoas e das famílias, para uma melhor identificação, tendo em conta ainda que os alcunhas popularmente conhecidos, que sempre existiram, existem e existirão em Loriga, fazem parte da cultura do povo loriguense de que todos nos orgulhamos
.

- Adelino M.M Pina
-António Brito Calado
-António Brito Mendes
-António Dias de Brito
-António José C.Leitao
-António Moura Pinto

-Carlos Alves Brito
-Carlos Félix de Moura
-Carlos Florêncio Palas
-Carlos Mendes da Costa
-Gabriel Lopes Pina
-Joaquim Zacarias F. de Brito
-José Brito Calado

-José de Moura Carreira
-José Gouveia
-José Mendes de Pina
-José Nunes Dias
-José Pinto Lages
-Nuno M.A.Pereira


Joaquim Zacarias Fernandes de Brito *
Comissão na Guiné 1972 - 1974

Introdução

Sou natural de Alvôco da Serra, localidade vizinha da vila de Loriga. Fiquei ligado a esta hospitaleira vila Loriga, pelo casamento com Maria Natália Prata e, que a partir de então passou a ser mais uma minha terra de adopção, pela qual também passei a ter um carinho especial e passei gostar dela como todos os loriguenses dela gostam. Neste enquadramento, junto-me aos loriguenses nesta rubrica Guerra do Ultramar, para aqui também registar a minha passagem por essa guerra, tendo em conta de me encontrar muito ligado a esta linda vila de Loriga.

Ano 1971 - Viseu, meu Pelotão na recruta

Fui à inspecção em 4 de Junho de 1970, tinha então 18 anos, como não podia deixar de ser, fui apurado. Entrei para a tropa no ano seguinte, tendo assentado praça na última incorporação desse ano, mais precisamente no dia 18 de Outubro de 1971, tendo como destino o RI.14 na cidade de Viseu. Como curiosidade quero aqui recordar que o meu ordenado na recruta (pré como de dizia na tropa) foi de 7$50.

No princípio do ano de 1972, segui para Abrantes para tirar a especialidade de Atirador de Infantaria, após a especialidade tirada fui de imediato mobilizado e também de imediato fui fazer parte do I.A.O. em Santa Margarida. Gozei os 10 dias de licença mobilizadora, recebi 400$00 e ali estava eu pronto para seguir viagem.

Ano 1971 - Minha Caderneta Militar

Ano 1972 - Embelema do meu Batalhão

Ano 1972 - Chegada à Guiné

Fui mobilizado para a Guiné, incorporado no Batalhão de Caçadores 3883, ficando a pertencer à Companhia 3546 e colocado no 4º. Grupo de combate. Embarquei em Lisboa de avião em 23 de Março de 1972 para Bissau. Quando cheguei fui para Bolama de Barco, estando lá alguns dias para acabar de tirar o I.A.O.

De Bolama fui de barco para o Xime, e segui de coluna para Piche (zona leste) permanecendo nesta zona vinte e sete meses, repartidos entre Piche, Ponte Caium e Camanjabá (para fazer segurança à ponte e às colunas que seguiam para Camajabá e Boruntuma), bem como, intervi em muitas operações por toda aquele mata da zona leste.

- Piche - era o local aonde estava sediado o meu batalhão, passaram por lá vários conterrâneos (Zé Gouveia, Tó Ribeiro, Mário Pires e o meu amigo António Santa de Alvoco da Serra.
- Ponte Caium - Uma ponte com quatro abrigos, dois à entrada no sentido de Piche e dois à saída no sentido Camajabá, com equipamentos de defesa ( morteiros 120, 81, 60 e metrelhadoras).
- Camajabá - Destacamento já com alguns civis, tendo como missão (patrulhamento, fazendo segurança à abertura da estrada para Boruntuma e protecção dos civis).

Ano 1972 - Ponte de Caium - Onde tinhamos os abrigos e respectivas coberturas

Ano 1972 - Ponte Caium (uma jangada improvisada)

Ano 1972 - Abrigo em Camajabá

Ano 1972 - No mato sempre protegido

Ano 1972 - Em Camajabá vala de protecção, caso de ataque

Ano 1972 - Andava sempre bem acompanhado

Ano 1972 - Ponte de Caium, Morteiro 120

Ano 1972 - Camajabá, à saída de um pontão

Ano 1972-1973 - Os guerreiros também dormem, na cama ou em qualquer lugar

Nesta fotografia aqui documentada, tenho ao meu lado o "Shoné" o cão meu fiel amigo, nosso mascote (este cão merecia ser condecorado, estava sempre presente na linha de combate e foi ferido gravemente) algumas vezes salvou a vida de muitos de nós.

Passei quase a totalidade da minha comissão na Leste da Guiné, bem dentro da zona de Intervenção, longe da civilização e em contacto permanente com o perigo que espreitava a todo o momento, sempre armados até aos dentes, como se dizia na gira, porque a nossa defesa eram as nossas armas, as nossas permanentes companhia, que temos a plena consciência de nos terem sido bem úteis nalgumas das muitas operações efectuadas, algumas mesmo bem complicadas.
Era em Piche que estava sediado o meu Batalhão, a minha rotina era uma constante actividade entre Piche, Ponte Caium, Camajabá. A minha Companhia estava em Camajabá aonde tinha por missão fazermos segurança à abertura da estrada, para Boruntuma construída pela Tecnil.
Volto novamente para Piche, aonde estava sediado o meu batalhão e a rotina era vira o disco e toca o mesmo (quando não estava riscado). Entretanto vim para Bissau pensando que a minha missão estava cumprida, mas enganei-me …

Ano 1972 - Com a minha lavadeira

Ano 1973 - Piche,
Com o meu amigo Zé Santos da Guarda
(Casado com uma Loriguense)
junto à população local

Ano 1972 - Ponte de Caium, num dia de folga

Ano 1973 - Comendo a ração de combate com o
amigo Mateus, numa operação, para os lados
do rio Corubal.

Ano 1973 - Com os meus amigos Mortágua, Oliveira e Ferreira,
brindando não sei ao quê.....

A maior parte do tempo da minha guerra, foi sempre metido no mato, pensando eu muitas vezes "que mal fiz eu para merecer este castigo". Sou daqueles que estão incluídos naquele patamar que podem dizer com angústia "comi o pão que o diabo amassou".
O meu Batalhão foi bastante afectado com baixas, só na minha Companhia tivemos seis, por isso, se pode ver a constante actividade a que éramos sujeitos e zona de guerra onde estavamos.

Entretanto, chega o ano de 1974 e dá-se a Revolução dos Cravos, os ecos do dia 25 de Abril chegam também até nós, a expectativa é enorme e ansiedade ainda é maior, nota-se o cheiro da liberdade, mas continuamos atentos, mesmo até com atenção mais desdobrada. Pensa-se que muito pode mudar, estou no final da comissão e tarda o regresso, que parece a continuação do pesadelo.

Ano 1973 - Em Piche, com o meu grande amigo Mateus de Santiago do Cacém

Ano 1973 - Em Camajabá, conviver com os animais era nosso quotidiano

Ano 1973 - Em Camajabá, em frente ao abrigo (eram estas as nossas instalações)

Ano 1972 - Postal de Boas Festas - Chegou à Metrópole um mês depois

Em Bissau estive-mos novamente em permanente actividade, a nossa missão consistia fazermos a segurança às principais e mais importantes infra-estruturas da cidade.
Certo é, que as comissões militares na província da Guiné, por norma eram de um período compreendido de 17 a 21 mês, no entanto, o meu Batalhão ficou 27 longos meses, que me parecia nunca ter mais fim.

O momento mais feliz que tive, foi quando o pesadelo acabou ao receber-se a mensagem que dava conta do meu regresso à Metrópole, com a viagem de avião programada para o dia 23 de Junho de 1974. Só acreditei finalmente terminar todo esse pesadelo, que me acompanhava à mais de dois anos, quando por fim fiz o espólio no RAI.1, (Encarnação) em Lisboa, saindo a porta de armas à civil (nem olhando para trás) finalmente me senti livre tal como um passarinho.

Nota complementar

Este meu registo são alguns dos meus escritos em papel, que os posso rasgá-los e esquecê-los.…( ninguém me perguntou se eu queria ir para a Guerra, fui obrigado a aceitar) como tantos outros.
Mas na minha memória jamais os apagarei, vendo ao meu lado sucumbir companheiros e eu sem lhes poder valer. A eles presto a minha sincera homenagem.
Dou Graças a Deus, por ter regressado, para junto de todos, que ansiosamente aguardavam a minha chegada.

O que é a guerra?.. "Uma profissão de bárbaro em que a arte consiste em se ser o mais forte em dado ponto." (Conde De Ségur)

* Joaquim Zacarias F. de Brito


Carlos Félix de Moura *
Comissão em Angola 1967 - 1969

Entrei para a tropa na última incorporação do ano de 1966, foi no dia 25 de Outubro, que dei entrada no RI12, para tirar a recruta. Fui depois para Amadora tendo como destino o RI1, onde fui tirar a especialidade de atirador de infantaria.

Ano 1967 - Amadora final da especialidade

Ano 1966 - Caderneta Militar

Em 22 de Fevereiro do ano de 1967, terminei a especialidade e logo no mês seguinte fui mobilizado, sendo integrado no Batalhão 1908 Companhia 1674, tendo como destino a província de Angola, para onde embarquei no dia 15 de Abril desse ano, a bordo do navio "Vera Cruz" com a chegada a Luanda no dia 24 desse mesmo mês.

Ano 1967 - Chegada a Bom Jesus (Angola)

Fomos colocados no Grafanil (Luanda) quartel onde eram sediadas os Batalhões e Companhias, que acabavam de chegar a Angola. Poucos dias depois fomos deslocados para o norte para Bom Jesus, cerca de 300 Km. de Luanda, onde estive um ano.Era uma zona muito isolada, principalmente no tempo das chuvas, tínhamos sempre problemas de abastecimento, que obrigava a ser efectuado por avião.
Foram muitas as operações efectuadas naquela zona, muitas verdadeiramente cansativas, passamos muito tempo pela mata, mas felizmente a sorte protegeu-me conseguindo superar todas as dificuldades.

Ano 1967 - Bom Jesus, momentos de abastecimento por via aérea

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Ano 1967 - Bom Jesus, Aquartelamento no meio da mata

Ano 1967 - Bom Jesus, um dia de camaradagem

Ano 1967 - Registo de dias de operações algures pelo norte de Angola

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Ano 1967 - Por vezes era só de Helicóptero, o meio de transportes para sair do Bom Jesus

Ano 1967 - Registo os meus dotes musicais

Em Abril de 1968, o meu Batalhão foi deslocado para o sul ficando a minha companhia sediada em Novo Redondo. Então sim, estávamos muito melhores e quando parecia que tudo ia bem, passado apenas dois meses de ali estarmos naquele local, fui castigado juntamente com um Alferes, tendo sido enviado para o Leste de Angola, Alto Cuíto zona da frente de guerra, onde passei todo o restante tempo da comissão.
Esse castigo deveu-se, que quando estávamos na Vila D. Maria, perto de Novo Redondo, eu e o Alferes fomos a uma (tabanca) num "Kimbo" (Sanzala) tentar comprar galinhas. Entretanto o Comandante formou todo o Batalhão, onde só faltávamos nós, ao chegarmos, o Alferes ainda me disse "para dizer que era o condutor dia" só que o Comandante não engoliu a peta, fomos castigados e tal como disse enviados para a frente da guerra, onde comi o pão que o diabo amassou.

Ano 1967 - Foto do "Zé LóLó junto a uma "Berliete"

Ano 1968 - Novo Redondo um dia de passeio e de laser

Fiz muitas operações por terras do Lesta de Angola, por vezes de dias e dias pela mata. Lembro-me que numa dessas operações que fizemos e quando estávamos já bastante cansados, sentamo-nos naquilo que pensávamos ser um tronco, de repente começa a mexer, na verdade era uma enorme Jibóia, que aqui documento em foto, apanhei cá um susto que durante dias não me esqueceu. Reagi-mos de imediato a lai vai fogo matando-a, que veio depois a servir de refeição aos nativos locais de uma Sanzala ali bem perto.

Ano 196 - Com a Jiboia após a termos morto

Uma outra complicada situação quero aqui relatar. Um dia eu e um camarada ao terminarmos o serviço resolvemos ir à caça para a refeição, não avisa-mos ninguém pouco depois avistamos uma gazela e lá vai fogo, os tiros foram ouvidos no Aquartelamento, de imediato foi montado uma operação de defesa, pensando que fosse um ataque, o que valeu foi um dos nossos colegas num local do aquartelamento mais bem colocado, nos ter avistado com a gazela às costas e nos ter reconhecido de imediato no preciso último momento em que estavam para disparar. Felizmente tudo acabou em bem para esta atitude irreflectida, claro, que não nos livramos de uma grande descompostura pelo nosso comandante.

Ano 196 - A famosa Gazela que nos ia custando a vida

Levei da Metrópole um cão, que se revelou um autentico soldado, só que era racista, não podia ver um africano, manifestava-se logo e queria logo atacar. No entanto. Era um verdadeiro vigilante e quando pressentia alguma coisa, não ladrava mas fazia tudo para se fazer compreender que algo se passava, acabou por morrer mordido por um bicho.

Encontrei-me com o conterrâneo "Zé LóLó" tendo registado esse encontro com a foto que em cima registo, ele junto a uma "Berliete".

Regressei à Metrópole no navio "Vera Cruz", precisamente o mesmo barco que me tinha levado para Angola. Desembarquei em Lisboa no dia 3 de Julho de 1969, um dia lindo radiante de sol que nos deu as Boas-vindas.

* Carlos Félix de Moura

Nota Complementar

Regressei feliz e contente, tendo feito mais três meses de comissão do que era supor, tudo relacionado por ter sido castigado e mandado para o Leste da Angola, apenas e simplesmente por ter ocorrido aquela situação quando estava na região do sul em Novo Redondo, ao me ter ausentado do Quartel, juntamente com o Alferes, sem autorização. Penso no entanto, que o que levou a ser-mos assim severamente castigados, foi por nessa altura já estar a vigorar com certa rigidez a chamada guerra psicológica, com o RDM a ser mais regido na sua aplicação ao militares a cumprirem as comissões nas Províncias Ultramarinas.


Gabriel Lopes Pina *
Comissão em Moçambique 1971 - 1973

Entrei para a recruta mo RI14 (Viseu) no dia 20 de Outubro de 1970, ficando portanto muito perto de Loriga. No principio do ano de 1971 fui transferido para o BC5 em Campolide Lisboa, para tirar a especialidade de Transmissões de Infantaria.

Nesse mesmo ano de 1971 fui mobilizado pelo RI15 de Tomar, tendo como destino a província de Moçambique, mais concretamente METARGULA distrito do Niassa, para ali chegarmos utilizamos o barco, comboio, camião e lancha visto que era uma ilha.

Ano 1970 - Primeiros tempos da minha vida militar

Embarquei para Moçambique em Outubro de 1971, viagem efectuada no navio "Niassa". Sabendo que nesse mesmo barco embarcou também o António José (Senhora Ilda do talho) marido da Lúcia Lucas, levei cinco dias para o encontrar. Na maioria das noites dormi ao relento, pois o sitio recomendado e destinado na viagem era do pior que possam imaginar.

Ano 1971 - "Niassa" o barco da viagem

Adeus terras da Metrópole
Que eu vou pró Ultramar
Não me chorem, mas alegrem-se
Que eu hei-de regressar

Ano 1971 - Quadra muito usual na época

Na altura o meu primo Tó Rifona estava em comissão em Luanda (Angola) como se sabia que os barcos para Moçambique faziam normalmente escala nessa cidade, a minha tia Palmira (sua mãe) pediu-me para lhe levar umas chouriças, que me prontifiquei levar. Já no decorrer da viagem diziam-me que havia um cheiro nauseabundo no sítio da minha bagagem, na realidade isso acontecia, verifiquei e eram então as chouriças que se estragaram e deitavam esse cheiro, foi tudo deitado ao mar e até os peixinhos se devem ter queixado com tão horrível presente.

Ano 1971 - Quartelamento de Metargula

Ano 1971 - No meu posto de serviço sempre activo

Ano 1972 - Momentos de pensamentos para a Irene (namorada)

Ano 1972 - O guerreiro posando para o retrato

Na chegada a Lourenço Marques, eu e o António José fomos dar um passeio, nisto vejo o Carlos "Verdasca" com um familiar, dei conta da minha visão ao António Zé e ele nem queria acreditar. Entramos no Restaurante e era mesmo ele na companhia de um familiar, ofereceram-nos o jantar, apanhamos uma bebedeira que confundimos uma chaminé de uma padaria com o barco, o que nos provocou um atraso que quase impedia a continuação da nossa viagem, lá baixaram uma escada de corda e lá seguimos ainda entrar no barco.

Ano 1972 - Refeitório (hora do "tacho")

Ano 1973 - Exposição de minas dos mais variados formatos, já desactivadas e que tinham estado activadas para aleijaram muitos de nós

Ano 1973 - Não sendo aviador mas era capaz de colocar
no ar aquele gerigonça do avião

Ano 1973 - Testando o avião vendo ao longe o horizonte,
da Metrópole, só apetecendo fugir

Ano 1972 - A falar para a rádio (envio de mensagem)

Ano 1972 - Mina anti-carro ainda activada trabalhos de desactivação

Passei uma comissão sem grandes atropelos o meu maior medo era que acontecesse alguma coisa ao António Zé, pois do sitio onde me encontrava via os ataques ao quartel dele, e por via rádio recebia muitas vezes más noticias.
Fizemos a viagem juntos até aquela zona em Moçambique, estivemos em comissão muito próximo um do outro, por estranho que pareça não tivemos oportunidades de encontrarmo-nos. Mas na única oportunidade que isso aconteceu passei por ele e não o reconheci, pensei que tivesse abalado, quando os meus colegas me disseram que ele estava barbudo como o Pai-Natal e por isso não o reconheci.
Por falta dessas oportunidades não tenho por isso registo de fotografia com o António Zé (talho).

Ano 1972 - Os guerreiros também merecem descansar


Nota complementar

Regressei à Metrópole em Outubro de 1973, precisamente dois anos da minha chegada ali, para cumprir o meu dever. Tive a felicidade de para mim ter corrido tudo bem, o mesmo não poderão dizer outros de uma guerra que nem sabias muito bem o porquê de existir e à qual demos parte do nosso precioso tempo da nossa juventude. Passei à disponibilidade em 16 de Novembro de 1973

* Gabriel Lopes Pina


José Mendes de Pina *
Comissão em Moçambique 1963 - 1966

Assentei praça em 5 de Maio de 1963, no RI 5 nas Caldas da Rainha, juntamente como o António José Leitão e o António M. Pereira (Cebola). Fui depois para Mafra tirar a especialidade de Transmissões de Infantaria, que durou um pouco mais de dois meses, onde me encontrei novamente com o conterrâneo António José Leitão.

Ano 1964 - Com dois camaradas vaidosos por estramos em pose

Fui mobilizado pelo RAL.1 em Outubro de 1963 tendo como destino a província de Moçambique, para onde embarquei no navio "Niassa" em 23 de Novembro desse ano.
Fui incorporado na Companhia 561 do Batalhão 562, que foi sediada em Tete (Furancunco), uma zona que no primeiro ano de comissão não teve movimentação de guerrilha, que só se veio a manifestar já no segundo ano em 1965, nessa altura já tínhamos uma certa experiência, bem conhecedores e integrados a nível ambiental na região, que foi muito importante e fundamental para um meio de controlo eficaz a todos os níveis.

Ano 1964 - Trabalhos comunitários construção de estradas

Ano 1964 - Trabalhos comunitários o do centro
é o meu cunhado J. L. Martins que vive em Loriga

Tinha como camarada e com a mesma especialidade José Luís Martins conhecido pelo (bigodes) também natural do nosso Distrito da Guarda. Este camarada pede-me para lhe arranjar uma madrinha de guerra. Aconselhei a minha irmã Isabel, daí ter nascido o casamento e hoje ser meu cunhado, que veio a ser o obreiro para a construção do prédio "Cor-de-rosa" no Bairro das Penedas" em Loriga, onde se radicou, depois do regresso da França, onde ele e minha irmã estiveram emigrados durante alguns anos, onde ainda lá vive a filha e netos.
Com estávamos numa Zona em que a guerrilha não era expressiva, a nossa comissão foi praticamente toda ela dedicada ao serviço de Psicossocial em prol da população autóctone, que para além de muitos trabalhos em construção e conservação de estradas e povoações, algumas das operações de actividade operacionais efectuadas eram em missão de reconhecimento. Também fazíamos alguns espectáculos dirigidos à população civil, onde muitas da vezes coloquei os meus dotes artísticos, por isso ser conhecido por "Pina do Diabo".

Ano 1965 - Limpeza das armas

Ano 1965 - O meu Pelotão da Companhia 561

Os aerogramas era o meio de correspondência grátis para os militares, muito utilizado para se corresponder com a família e com outros camaradas. Para o efeito todas os aquartelamentos, batalhões, companhias, destacamentos etc., tinham um número SPM (Serviço Postal Militar) o da minha companhia tinha o número 1794. Apenas como registo e para recordar, aqui transcrevo um aerograma, que guardo como recordação e que enderecei ao António José Leitão em 22/09/1964, que cumpria a comissão na província do Zambeze.

Alguns apontamentos da transcrição deste aerogranma

Para: António José Leitão 1º Cabo nº 1484/63 SPM 1694
De José Mendes Pina Soldado nº 966/63 SPM 1794

"Furancungo 18/06/1964: Amigo António José cá recebi o teu estimado aerograma e nele vi tudo quanto me dizias, o que mais estimei foi a tua saúde, eu também graças a Deus com boa saúde. António José recebi o teu aerograma foi coisa que nunca esperava fiquei muito contente ao receber o teu aerograma pois ao menos já me fico a corresponder com mais um amigo da terra……….. Já que te escreves com o "Rápido" e o Ferrão pedia-te o favor de me mandares as direcções deles. …. Eu também me escrevo com o José Fontes e para já te envio a direcção. José Pinto Fernandes 1º Cabo Enfermeiro nº 2253/63 SPM 1814 etc.. etc.. etc.."

***

Regressei à Metrópole no dia 4 de Abril de 1966, viagem efectuado no navio "Quanza" completando em Moçambique 28 meses de comissão ultrapassando em muito os normais dois anos que pertenciam.


Nota Complementar

Regressei do Ultramar com o dever cumprido, de muito ter feito a favor das populações locais e ao mesmo tempo de ter regressado em bem. Voltei a Loriga para o meu trabalho na fábrica de lanifícios Nunes & Brito, dentro de mim começou a surgir a ideia de emigrar o que aconteceu em 1969, numa rocambolesca viagem para a França, por culpa de um passador, que é caso para dizer, "comi o pão que o diabo amassou" mas consegui ir em frente, talvez preparado ainda com muita da minha força dos meus tempos do Ultramar.
Deixei a França em 1994, regressando a Loriga, explorei o Café Neve, e entretanto reformei-me. Hoje continuo levando uma vida saudável com longos passeios pelos caminhos rurais da nossa Loriga, que não deixo de assinalar com montinhos de pedras, para que outros não se percam nos matagais.

* José Mendes de Pina


José Brito Calado *
Comissão em Moçambique 1971-1973

Entrei para a tropa em 5 de Julho de 1971, assentando praça em Coimbra no RAL 2 CICA4, onde também tirei a minha especialidade de Condutor de pesados. Fui mobilizado logo a seguir de tirar a especialidade, tendo como destino a província de Moçambique para onde segui em 16 de Novembro de 1971.

Ano 1971 - Coimbra, tempos da recruta

Ano 1971 - Coimbra, dia do Juramento de Bandeira

Ano 1971 - Coimbra, meu pelotão da recruta

Ano 1971 - Coimbra, Com alguna camaradas da recruta

A viagem para Moçambique foi já efectuado de avião, nessa altura, o transporte dos militares já se estavam a realizar via aérea, bem como, o regresso também foi efectuado por essa via, assim era evitada a longa viagem de navio, que para aquela província ultramarina chegava a durar cerca de doze a quinze dias.
Cheguei a Moçambique tendo ficado sediado na bela cidade da Beira, tendo a especialidade de condutor, como é fácil de compreender e estando numa cidade, estava sempre em actividade, tendo a maioria das minhas missões sendo desencadeadas a favor comunitário, a nível das localidades e suas populações.

Ano 1971 - Cidade da Beira, o avião que me transportou

Ano 1972 - Moçambique, com uma das viaturas que conduzia

Ano 1972 - Moçambique, numa operação algures por terras Moçambicanas - curioso já ser tirada a cores esta foto

Na Beira encontrava-se também a fazer a comissão o conterrâneo José Jorge, que era Policia Militar e com o qual me encontrava, no entanto, não tenho o registo em fotografia. Tive uma comissão por terras Moçambicanas, que de certa maneira poderei dizer não ter sido muito má, o mesmo não podem dizer muitos de outros nossos camaradas que nem todos tiveram sorte.

Ano 1972 - Perto da Beira, numa operação

Ano 1972 - Perto da Beira, ao serviço da comunidade

O meu irmão António passou na cidade da Beira em Outubro de 1973, quando da sua viagem de barco para Macau, onde cumpriu a sua comissão. Estando eu nesta cidade da Beira, lamentavelmente não nos encontrarmos por falta de alguma informação que não chegou até mim, nomeadamente de pessoas lá na Beira.

Ano 1972 - Beira, Com a viatura que conduzia

Ano 1972 - Beira, com um macaquito

Ano 1973 - Beira, usando os meus dotes de culinários

Nota Complementar

Decorria o Ano de 1973, quando com alguma surpresa recebi a notícia da mobilização do meu irmão António, para a província de Macau. Segundo se sabia não podiam ser mobilizados dois irmãos, no entanto, isso aconteceu na minha família, eu estava em Moçambique e o meu irmão é também mobilizado, só que o destino dele foi para o longínquo Macau, onde fez os dois anos da sua comissão. Por isso se pode compreender, se leis existiam não eram para todos.


António Moura Pinto *
Comissão em Angola 1974-1975

Entrei para a tropa em 20 de Outubro de 1973, na Guarda onde fiz a recruta que terminei em 3 de Janeiro de 1974, seguindo no dia seguinte para Lisboa com destino ao BC.5 (Campolide) para tirar a especialidade de Transmissões e onde fiquei até Junho desse ano.
Entretanto, acontece o 25 de Abril a chamada Revolução dos Cravos, começando então a viver-se uma nova era em Portugal, começou até já a ser imaginativo em muitos, que com a mudança politica, provavelmente iria ficar suspensa o envio das tropas com destino ao ultramar português.
Certo que nada disso se passou e, em Junho sai a minha mobilização, com destino Angola, tendo em 1 de Julho seguido para Santa Margarida, no sentido de ser integrado na Companhia de Cavalaria 8440, tendo-me ali mantido cerca de um mês.
Em 1 de Agosto de 1974, embarquei para Angola num avião da TAP, nessa altura os transportes de tropas já estavam a ser efectuadas via aérea, terminando aquele calvário do transporte por barco, que por norma demorava cerca de 10 dias até chegar àquela província portuguesa.

Chegamos a Luanda, tendo a viagem decorrido em cerca de 8 horas, logo à saída do avião veio-nos o cheiro de África, por momentos parecíamos surpreendidos, que ainda oito horas atrás estávamos em Lisboa e ali estávamos nós para enfrentar o desconhecido.
Tivemos com destno o norte de Angola, ficando a minha Companhia 8440, sediada na Fazenda da "Maria Fernanda" (Carmona) numa zona bem a 100% operacional e ondei nos mantivemos durante 4 meses.

Ano 1974 - Destacamento "Fazenda Maria Fernanda" norte de Angola

Ano 1974 - Embelema da Companhia

Ano 1974 - Norte de Angola com colegas

Ano 1974 - Noma operação norte de Angola

Foram várias as operações militares em que entrevi, praticamente todas elas de reconhecimento, no entanto, a minha Companhia registou 4 baixas mortais, todas elas motivadas por acidente. Uma das mortes aconteceu mesmo ao meu lado, quando a "Berliete" em que viajávamos apanhou um buraco, que projectou o nosso furriel e o fez cair e ser de imediato apanhado pelo rodado da viatura, ficou gravemente ferido mas morreu logo depois.

Ano 1974 - Norte de Angola, no posto de vigilia

Ano 1974 - Norte de Angola, escrevendo dando noticias á família

Ano 1974 - Norte de Angola, uma viola para matar saudades

Ano 1974 - Norte de Angola, o dever de proteger a população

Ano 1974 - Norte de Angola, missão e dever de proteger a população

Ao fim de quatro meses no norte, fomos transferidos para Nova Lisboa (hoje Huambo) para o Quartel 21, onde estivemos também cerca de 3 meses (Novembro 1974 a Fevereiro 1975).
Durante a minha comissão não tive a sorte de me encontrar com colegas militares loriguenses, no entanto, em Nova Lisboa (hoje Huambo) encontrei-me com o senhor António Moura Pinto, que ali estava radicado, em Luanda encontrei o nosso bem conhecido conterrâneo José Paixão que ali vivia e trabalhava.

Ano 1975 - Nova Lisboa, sempre atendo com o dever de vigiar

Ano 1975 - Quartel 21 em Nova Lisboa, como é de reparar, curioso é já ter algumas fotos a cores que na época era um luxo

Os ecos da independência já se faziam sentir, as negociações já estavam a decorrer, nós sentíamos já esses efeitos, por isso era um viver de expectativa e de certa ansiedade, mesmo parecia já termos sempre presente que já não seria por muito mais tempo que iríamos estar em Angola.
De Março a Outubro de 1975, fomos enviados para Benguela, mais ao Sul de Angola, onde passei os restantes 8 meses da comissão, quando nessa altura já estava em curso as transferências das unidades militares portuguesas para os Movimentos Revolucionários.

Ano 1975 - Benguela, momentos de divertimento

Ano 1975 - Benguela, gozar um tempo de praia

Ano 1975 - Benguela, lendo as revistas da ocasião

Ano 1975 - Benguela, gozar o merecido descanso

Ano 1975 - Benguela, posar para o fotografo

Ano 1975 - Benguela, com um meu camarada dia de "farra"

Regressei à Metrópole em 26 de Outubro de 1975, regresso também efectuado de avião, precisamente quinze dias antes do dia 11 de Novembro de 1975, o dia que foi proclamada em Luanda a independência de Angola.

* António Moura Pinto

Nota Complementar

Pertenci a um dos últimos bastião da campanha da guerra colonial, passamos a nossa comissão em terras de Angola já debaixo da Liberdade que tinha surgido com o 25 de Abril, por esse motivo notamos sempre uma grande tensão que não sabíamos como iria terminar.
Ouviu-se dizer que o nosso exército perdeu a guerra que se arrastava acerca de 14 anos, mas não é verdade, a guerra se foi perdida foi pelos políticos de antes e depois do 25 de Abril, nós o militares demos tudo o que tínhamos e parte das nossas vidas com sacrifícios e privações, mas com a certeza de termos contribuído para o progresso dessas terras angolanas e suas populações.

Regressamos ao nosso cantinho na Europa, cientes do dever cumprido, nessa altura vivia-se também pelo nosso país tempos conturbardes, fruto de uma definição que levou algum tempo a impor-se.


António Brito Calado *
Comissão em Macau 1973-1975

Entrei para a tropa em 6 de Fevereiro de 1973, tendo assentado praça no Regimento de Infantaria 14 em Viseu. Depois de completar a recruta fui transferido para Évora para tirar a especialidade de atirador de artilharia de "obuses" 8-8 e 14.
Após ter tirado a especialidade fui promovido a primeiro-cabo tendo sido transferido para o RAL1- Rotunda da Encarnação em Lisboa, onde vim a ser mobilizado.

Quando se entrava para a tropa, nessa altura, na mente de todos nós, estava sempre presente a ideia de que ao sermos mobilizados lá iríamos parar a Angola, Moçambique ou Guiné, as três frentes da guerrilha. Por conseguinte foi com enorme surpresa ao ser mobilizado para Macau.

Ano 1973 - A bordo do navio "Timor"

Depois da confrontação de ter com destino o longínquo Macau, seguiram-se os dias de ansiedade e ao mesmo tempo uma enorme curiosidade, ao mesmo tempo numa certa expectativa de como me iria dar do outro lado do mundo bem junto à China, países de outras culturas, de usos e costumes bem diferentes da Europa e África.

Ano 1973 - O "Ti António Farias" a fazer-me a última barba antes da partida para Macau

Ano 1973 - Procissao de S.Sebastião já mobilizado

Dizia-se na altura, que existia uma lei, que dois irmãos não se podiam juntar a cumprir comissão no Ultramar, só que parece que essa lei não era para todos, porque o meu irmão José ainda estava a cumprir a sua comissão em Moçambique e eu fui também mobilizado.

Ano 1973 - Viseu, primeiros dias de tropa, na foto lado direito está também o meu cunhado António

Embarquei para Macau no navio "Timor" em Outubro de 1973, sabíamos que iria ser uma viagem de cerca de um mês com escalas em vários portos ultramarinos. Uma dessas escalas foi na cidade da Beira (Moçambique) onde se encontrava o meu irmão a cumprir a sua comissão, por isso, até levava comigo uma encomenda. Só que por motivos imprevistos e ainda por falta de colaboração de algumas pessoas, não foi possível o ver, o que me marcou para sempre e muito lamentei.

Ano 1974 - Macau, Cartão de Livre trânsito usado em Macau

Ano 1973 - Évora, a tirar a especialidade

Ano 1974 - Macau, ainda tempo para acrobacia

Chegamos a Macau em Novembro de 1973, ficamos sediados no Quartel da Guia o ponto mais alto de Macau, desde logo notamos a diferença tal como esperavamos, na realidade estavamos noutro mundo, noutras terras, com outras gentes e outros usos e costumes, que nada parecia fazer lembrar a Europa.

Ano 1974 - Macau, Dando tiro de salva (Quartel da Guia)

Ano 1974 - Macau, Com o Tenente Graca na festa do Natal no Quartel

Ano 1973 - Dili-Timor, escala nesta cidade ainda houve tempo para um jogo de futebol

Ano 1974 - Macau, descanso do guerreiro

Ano 1973 - Macau, pouco tempo depois da chegada

Ano 1974 - Macau, "taxista" à moda chinesa

Ano 1974 - Executante de timbalão na Fanfarra Militar

Ano 1974 - Macau, junto do famoso casino desta cidade

Ano 1974 - Macau, futebol Futsal entre oa camaradas

Ano 1974 - Macau, o famoso monumento de referência desta cidade

Ano 1974 - Macau, era assim o porto-mar

Regressei à Metrópole em Maio de 1975, onde já há um ano se vivia a liberdade depois da revolução dos cravos no 25 de Abril de 1974. Viemos encontrar o país um pouco confuso e ainda sem um rumo definido. Quando partimos de Macau, tinha-mos já conhecimento que em Timor também já se estava a viver uma certa instabilidade de fraqueza, que veio a culminar, quando logo a seguir de o governo português ter dado a independência nas outras províncias ultramarinas, forças militares indonésias invadiram a 7 de Dezembro de 1975 aquela antiga colónia portuguesa, que eu conheci e a passei a recordar por ter ali passado, quando fui para Macau..

Nota Complementar

Não estive nas províncias com o cenário de guerra. A minha comissão em Macau resumia-se numa presença militar numa da província do império português além-mar, neste meu caso bem lá longe. Contribuí com algum tempo da minha mocidade a favor da Pátria, em terras que se diziam também ser Portugal, que apesar de terem usos e costumes diferentes, estou convicto de em certa forma, termos também contribuído para o bem-estar dessas terras e suas populações.

Recordo que Macau foi o último bastião do império português, passando para Região Administrativa Especial da República Popular da China, nos primeiros momentos da madrugada do dia 20 de Dezembro de 1999, deixando a partir desse dia de pertencer a Portugal que a colonizou durante mais de 400 anos. No entanto, por aquilo que conheci enquanto lá estive, estou certo que algo da presença portuguesa se manterá para sempre enraizada naquela antiga província portuguesa hoje terra chinesa.

* António Brito Calado


Carlos Alves Brito *
Comissão em Angola 1967-1969

Assentei tropa na Guarda em Abril de 1967, onde fiz a recruta. Fui depois para Amadora para o Regimento de Infantaria 1, onde tirei a especialidade de armas pesadas (MG) de Artilharia.
Fui mobilizado em Setembro de 1967, tendo seguido para Torres Novas para ser integrado na Companhia de Artilharia 1764, do Batalhão de Artilharia 1928 "Os Arietes", que tinha como destino a província de Angola, para onde embarcamos no navio "Niassa" no dia 10 de Outubro desse ano, tendo desembarcado em Luanda no dia 22 desse mês.
Alguns dias em Luanda no Quartel do Grafanil e no dia 29 foi efectuada a viagem do nosso Batalhão com destino para a região São Salvador, norte de Angola, ficando a minha Companhia 1764 sediada em Pangala zona fronteiriça com a RDCongo.

Tinha-mos a responsabilidade de uma área extensíssima (um losango com eixos de 50x40 Km.), sem informações houve que desenvolver um esforço de cobertura com saídas permanentes em normalizações e emboscadas de tal ordem, que durante o período se consumiram cerca de 18.000 rações de combate em 16 meses.

Ano 1967 - Simbolo do Batalhão 1924

Ano 1967 - Acampamento de Pangala

Ano 1968 - Numa operação algures no norte de Angola

Ano 1968 - Perto de Pangala com meus colegas Lopes e Raimundo

Não foi só na zona da nossa responsabilidade que fazíamos operações, como também, executamos outras várias operações e algumas de grande duração na falda W da Serra da Canda, o que granjeou à Companhia o cognome de "Os Arietas do Canda"
Mesmo assim a actividade da minha Companhia por aquela paragem do norte de Angola, não se limitou no campo operacional, apesar do pouco tempo disponível para outras actividades, mesmo assim, executamos várias obras que contribuíram para o nosso bem estar e das populações, como foi o caso da instalação eléctrica, esgotos (reparação sanitárias), tanques para a lavagem de roupa, cozinha, captação de água, postos de vigilância (reparação de alguns e feitos outros), colocação de arame farpado etc..

Ano 1968 - Pangala, ao serviço da comunidade

Ano 1968 - Pangala, serviço de Rádio único contacto com o mundo

Ano 1968 - Pangala, hora do banho no rio

Ano 1968 - Pangala, lugar simbólico que construímos no nosso aquartelamento

Em Março de 1969 fomos transferidos para Beu, passando a minha Companhia 1764, a ter a responsabilidade de uma ZA totalmente diferente de onde estávamos. Com uma área aproximada a 5.000 Km2 (aproximadamente a área do Minho) e uma população na ordem das 20.000 almas dispersas por cerca de 120 Sanzalas, houve que nos adaptarmos à nova área o que não foi fácil.

Ano 1968 - Pangala, lavando a roupa

Ano 1968 - Pangala, os lençois já lavados

Ano 1968 - Pangala, água potável

Ano 1969 - Beu, Com os colegas da secção

Ano 1969 - Beu, Fazer a "tosquia"

Ano 1969 - Pangala, num Gipe a precisar de reparação

Ano 1968 - Pangala, perto do aquartelamento

Apesar de termos estado sempre em Zonas de grande intervenção, a minha Companhia apenas teve duas baixas, com a morte de dois dos nossos colegas por acidente, aliás, o total da baixas ocorridas no nosso Batalhão foram 5 e todas elas de acidente. Dois na minha Companhia 1764, dois na Companhia 1763 e um na Companhia 1765.
Quando termina-mos a comissão, todos os da minha Companhia chegamos à conclusão de nos dar-mos por felizes de só terem morrido dois dos nossos colegas, tendo em conta a campanha de muitas operações pelos matos, frequentes colunas de reabastecimento por perigosas "picadas", com várias missões de risco e combate e também de muitas rações de combate que tivemos que comer, não há dúvidas que a minha Companhia foi feliz.


De regressei à Metrópole e ainda em Luanda encontrei-me ali com o Tó Pina, filho do senhor Joaquim Almas e em Dezembro de 1969 chegava a Lisboa a bordo do navio "Império".

* Carlos Alves Brito

Nota Complementar

Quando cheguei à Amadora encontrei-me com o amigo Adelino Pina "Palha" na altura já mobilizado e prestes a embarcar com destino a Angola, de onde eu acabava de chegar.

Só depois de já estar na Metrópole, a que comecei a recapitular todo o passado desde há dois anos para atrás, quando do meu embarque de Lisboa, como que parecia estarmos a dar um "salto" para o desconhecido e como iria decorrer a nossa permanência em Angola.
Nessa dúvida que tínhamos à partida e que pairava em todos nós sobrepunha-se numa certeza, de que estávamos dispostos a dar tudo por tudo, a oferecer o melhor do nosso esforço e boa vontade, do nosso poder e saber, fosse onde fosse e fosse em que circunstâncias fossem, em prol da Paz e do Progresso de Angola e Portugal. Realizamos impossíveis, ultrapassando-nos a nós próprios, sofremos sacrifícios inumeráveis, suportamos privações de toda a ordem, mas a fundamental missão que nos foi confiada cumprimo-la, temos a certeza disso, com honra e galhardia e orgulhosamente atingimos o termo de dois anos de comissão em plena consciência do dever cumprido.


António José Cabral Leitão *
Comissão em Moçambique 1963-1966

Entrei para a recruta na Caldas da Rainha em Maio de 1963 juntamente com o Zé Pina (Sabanico) e o António Pereira "Cebola". Um quartel impecável novo com boas louças das Caldas, muita limpeza e também muito suor durante toda a recruta. Dali parti para Mafra para tirar a especialidade, foi um tremendo choque, quartel velho, escuro, húmido, com uma taxa de ocupação tremenda e muito má comida. Ali me encontrei com o Zé Alberto Urtigueira e também e uma vez mais com o Zé Pina "Sabanico".
Tinha a especialidade de transmissões. Todas as estradas daquela região de Mafra foram por mim calcorreadas de arma e rádio na mão em muitos exercícios intermináveis, muita fruta surripiamos por todas aquelas quintas de noite e de dia. Como era de esperar depois da recruta e feita a especialidade fui mobilizado, sendo enviado para Cavalaria 7 na Ajuda. Depois foram dez dias de instrução nocturna entre a Trafaria e a Fonte da Telha, para estarmos prontos para a guerra colonial.

O meu Batalhão era o 571, do qual também faziam parte o Abílio "Rápido" e o António Ferrão. Embarcamos no dia 10 de Outubro de 1963 no navio "Pátria", mas só soubemos que o nosso destino era Moçambique, quando estávamos em pleno alto mar.

Ano 1963 - Partida de Lisboa do navio "Pátria"

Ano 1963 - Emblelema do Batalhão

Ao fim de 10 dias uma paragem em Luanda, e então sim sintimos pela primeira vez o cheiro da África. No outro dia seguimos viagem para Moçambique onde chegamos no dia 28 a Lourenço Marques, tendo aí ficado o António Ferrão, que como era condutor, ficou ali para se treinar no trânsito pela esquerda e nós lá seguimos ao longo da costa com destino a Nacala.
Ao desembarcarmos em Nacala aguardava-nos uma terrível trovoada tropical, que nos obrigou a refugiarmo-nos debaixo do comboio ficando com as nossas malas de cartão desfeitas. Nova viagem de comboio de longas horas até Iapala e depois novo transbordo desta vez para machibombos.
Por caminhos lamacentos e cheio de buracos atravessando rios e riachos e pontes e pontões lá chegamos finalmente. Tendo o Abílio "Rápido" ficado no Alto Molocué onde ficou a sua companhia 568, a 1ª. do Batalhão, seguindo eu para Mocuba onde fcou sediado o Comando do Batalhão -
"Mocuba terra de raça onde os caminhos se cruzam e a Zambézia se abraça".

Ano 1963 - Hospital de Mocuba

Ano 1964 - Mocuba com um Tigre

Ano 1964 - Mocuba dando noticias à família

Ano 1965 - Mocuba fui Àrbitro num desafio
futebol Norte-Sul (1-3) auxiliares Juvenal e Barros

Ano 1964 - Mocuba no refeitório

Ano 1964 - Mocuba ano da Taças das Taças que o Sporting ganhou

No Alto do Molocué havia um Hospital de Leprosos onde estava um loriguense Artur Pinto, na altura Frade. Em Mocuba vivia o loriguense António Ribeiro e estava ali sepultado o seu irmão Fernando Ribeiro que tinha morrido num acidente de motorizada, assim como, também vivia ali um senhor irmão do senhor João Galvão de Valezim, que sendo comerciante de sapataria era muito popular e muito entusiasta de desporto local como árbitro e dirigente. Tinham duas filhas muito simpáticas, que frequentavam a vida social local.
Felizmente na zona onde estava-mos sediados, a guerrilha foi pouco expressiva, aliás, desde que chegamos e durante um ano ainda não se tinha manifestado, o que só aconteceu já no meio da nossa comissão, nessa altura toda a nossa experiência e ambientação à região foi de facto fundamental para levarmos sem problema o resto da comissão. No entanto, o meu Batalhão registou dois colegas mortos, um de doença e outro de acidente.

Ano 1964 - Ponte Lugela com António Ferrão

Ano 1964 - Mocuba lendo o Jorna "A Neve"

Ano 1964 - Ponte Lugela sobre o rio Lugela

Ano 1965 - Mocuba assistindo a um jogo de futebol

Ano 1964 - Mocuba servindo na Messe dos Oficia (Dia de Festa)

Ano 1965 - Quilimane apoiando a Académica de Coimbra de visita a esta cidade

Ano 1965 - Despedida ao Sargento Pereira

Ano 1964 - Mocuba Uma Sanzala vizinha

Ano 1964 - Mocuba Limpeza às camas (caça aos Percevejo)

Na altura na região nasceram duas crianças gémeos siameses, tendo a noticia circulado bem depressa, os médicos militares e locais viram-se assim perante uma situação, que na altura os meios ainda não eram avançados, para fazer a operação de separação. Foi levada a efeito a operação por um grande médico de Moçambique auxiliado pelos médicos militares, na realidade, era uma situação muito complicada e de alto risco. A operação veio a confirmar esse risco, terminou sem êxito com as crianças a falecerem pouco depois.

Foto das crianças gémeos siameses

Quando fomos para o Ultramar e começamos a nossa comissão, na altura, ainda não se usavam os fatos camuflados, que só os viemos a ter já íamos com mais de um ano de estarmos em Moçambique.

Ano 1965 - Mocuba, confraternização com os meus camaradas

Ano 1965 - Mocuba, quando começamos a usar o camuflado

Se para Moçambique tínhamos ido três loriguenses, eu, António Ferrão e Abílio "Rápido" na viagem de regresso viemos seis, pois também regressaram connosco o Alferes José Carreira hoje no Brasil, o António Simão agora na América e José Fontes emigrante na Holanda.
Na viagem de regresso passamos pela Beira, eu e o António Ferrão tínhamos à nossa espera o nosso conterrâneo Zé Ferreira filho da senhora Júlia, na altura a prestar serviço militar na Força Aérea. Fomos também visitar o senhor Ramiro, casado com a senhora Filomena Moita, que trabalhava nos caminhos de ferro, que nessa altura já ali se encontrava sozinho, visto que a sua mulher e filhas já algum tempo que tinham regressado para Loriga.
O barco fez escala em Luanda, aproveitamos e visitamos alguns conterrâneos, o senhor Albano Neves e esposa, o senhor José Amaral e encontramos também o Guilherme Firmino, que nos levou a casa da sua prima D. Aurora Prata, que não só teve a gentileza de nos convidar para o almoço, como nos mostrou a linda cidade no seu "Carocha" .
Chegamos a Lisboa no dia 1 de Março de 1966
.

Último convívio realizado em Sines 02/05/2009
Hoje os convívios anuais estimulam os tempos passados cheios de recordações.

***

* António José Cabral Leitão

Nota Complementar

A minha guerra começou em 1962, quando os nascidos em 1942 se juntaram em Loriga, para o dia da inspecção.
Nesse ano houve a primeira inovação, pois o António "Abelha" resolveu alugar uma camioneta para o dia da inspecção, seguindo-se uma segunda inovação, de pela primeira vez, que eu me lembre, não houve foguetes à chegada a Loriga, porque todos concordamos que tendo começado a guerra em Angola o mais provável era a nossa mobilização para as várias frentes que se pensava que viessem a surgir noutras colónias. O dinheiro que se havia de gastar nos foguetes foi gasto num beberete na cave do Café "Neve" do "Ti Zé Maria".

Regressamos ao nosso cantinho na Europa, após cumprirmos a missão que a Pátria pedia para sacrificarmos as nossas vidas, fizemos as nossas famílias sofrer, ganhamos amizades e eternas, que hoje os convívios anuais estimulam.
Nós não perdemos a guerra, demos tempo a que os políticos de antes e depois do 25 de Abril, pudessem resolver o conflito a bem da Comunidade Lusíada. Conseguiram-no?.. "Cada um terá a sua resposta a História ainda não foi escrita...."


António Brito Mendes *
Comissão em Angola 1967 -1969

Entrei para a tropa em 3 de Maio de 1966, fiz a recruta na Carregueira linha de Sintra. Fui depois tirar a especialidade de Rádio Telegrafista ao Porto onde estive até Agosto.
Depois da especialidade fui colocado em Sacavém a dois passos de casa, onde ia dormir a quase todos as noites. Para isso tinha diariamente a respectiva autorização. Só que um dia pensei que não valia a pena estar a pedir a autorização, desenfiei-me, pois foi um erro, correu mal e fui apanhado em falta. Tendo então apanhado 10 dias de detenção que foram suficientes para não ser promovido a Cabo com me competia, o que penso ter sido uma injustiça, só por causa de apanhar esse castigo.

Fui mobilizado em Abril de 1967 e no mês seguinte embarquei no navio "Angola" com destino a Angola, fui em rendição individual, por isso mesmo, a minha comissão só começou a contar quando cheguei aquela província ultramarina.

Estive no Zala norte de Angola, sendo incorporado na companhia de caçadores 1582 pertencente ao Batalhão de Caçadores 1892. Mais tarde seguimos para o Leste de Angola onde fiz todo o resto da comissão.

Ano 1968 - Posto Rádio em Hemrique Carvalho.

Ano 1968 - Posto Rádio de destacamento de Chiluage.

Foram muitas as operações efectuadas por terras do Leste de Angola, apesar de termos tido alguns problemas, felizmente tudo correu bem à minha companhia e mesmo aos pelotões nos quais também estive integrado. Lembro-me até de um dia termos tido um tiroteio infernal em Cangamba, mas felizmente não tivemos baixas nem feridos.
O mesmo se não poderá dizer das outras companhias do Batalhão 1892, que durante a comissão tiveram 3 baixas, mas nenhuma delas em combate, uma de acidente e as outras duas por doença.

Ano 1968 - Com um Pelotão em patrulha de reconhecimento no Dala.

Ano 1968 - A transmissão de ocorrência
em plena operação algures no Leste de Angola.

Ano 1968 - Em Chiluage com o Alferes Pinto de Sousa
comandante do destacamento.

Ano 1968 - Em Chiluage com um Pelotão da Companhia
Caçadores 1582, num momento de descanso.

Só me lembro ter encontrado um conterrâneo loriguense, creio que foi em Balacende, só que não me recordo já bem do nome, mas penso que se chamava António Cardoso, infelizmente não registamos esse nosso encontro em fotografia.

Ano 1968 - Em Henrique Carvalho com dois dos meus melhores Amigos Miguel (Penacova-Coimbra) e Costa do norte.

Ano 1968 - Na cidade do Luso (hoje Luena)

Ano 1968 - No destacamento de Chibuage, o Pelotão num momento de descanso com o Comandante Alferes Pinto de Sousa a tocar viola.

Ano 1968 - No Descamento do Cangamba, refrescando as gargantas para matarmos a solidão e o isolamento.

Ano 1968 - Na passagem de nível na cidade do Luso (hoje Luena) na estrada que seguia para Henrique Carvalho. Conhecia esta cidade muito bem onde ia muitas vezes em serviço de escolta.

**

Regressei à Metrópole em Julho de 1969 (nesse mês descia na Lua o primeiro homem - Neil Alden Armstrong), a viagem de regresso foi no navio "Vera Cruz" que demorou 9 dias de viagem até Lisboa. Cumpri 26 meses de comissão, as companhias por onde andei já tinham regressado por terem terminado a comissão, mas eu como era de rendição individual ainda andei integrado por outros lados até terminar o meu tempo. Por isso, ter tido mais dois meses e tal de comissão quando o normal pertencia 24 meses.

* António Brito Mendes

Nota Complementar

Poderia ter sido pior a minha comissão de serviço na guerra do Ultramar, como era Telegrafista tive que alinhar em muitas operações pela mato e muitas das vezes estar destacado em destacamentos isolados, em que o único contacto que tínhamos com outros lugares era através das comunicações pela via Rádio Telegrafista.
No entanto, marcou a minha vida militar aqueles 10 dias de detenção, quando o sistema era lesto a castigar, mas era lento a dar o valor e não reconhecendo como valor o tempo que passamos nas nossas comissões, muitas vezes em operações pelos matos desconhecidos e a convivermos de perto com o perigo e porque não mesmo com a morte.

António Brito Mendes
(Rádio Telegrafista)


José Nunes Dias *
Comissão em Moçambique 1966-1968

Fui para a tropa em Abril de 1966, assentei praça em Coimbra, depois da recruta o meu destino foi o Porto onde tirei a especialidade de condutor. Ao terminar a especialidade tive como destino Lisboa, para na Fábrica de Braço de Prata, onde fiz serviço de impedido. Ainda nesse ano de 1966 fui mobilizado para Moçambique, para onde embarquei em Outubro no navio "Império".
O meu destino foi o norte de Moçambique, integrado na Companhia de Caçadores 1618 conhecida como "Toupeiras da Selva". Quando chegamos a Moçambique seguimos ainda de barco até ao Porto Amélia e depois fomos para a região de Cabo Delgado - Mutamba dos Macondes (Mueda).
Foram muitas as operações que realizamos pelas terras do norte de Moçambique, foi nessa altura que teve iniciou o conflito em Moçambique. Durante a permanência naquela região tivemos 5 baixas sofridas em combate e ainda uma outra morte de mais um colega (este por acidente morto por um colega) e também tivemos 3 feridos 2 em estado muito grave.

Ano 1966 - Acampamento de Mutamba dos Macondes.

Ano 1966 - No "meu" camião para o transporte em operações.

Ano 1967 - Alguns momentos de operações algures no norte de Moçambique.

Em Mueda encontrei-me com o nosso conterrâneo Joaquim "Pistola" e depois mais tarde também me encontrei com mais dois nosso conterrâneos o António José da "Maria Teretesita" e também com o Carlos Melo. Um encontro também muito saudade foi aquele quando me encontrei com o senhor Ramires, radicado em Moçambique, marido da senhora Filomena Moita e pai da Irene, Lurdes e Zeca Moita, todos eles na altura já a viverem em Loriga. Destes encontros aqui descritos, infelizmente não tenho o registo fotográfico.

Ano 1967 - Numa picada perto do Mueda.

Ano 196 - Simbolo da nossa Companhia.

Ano 1967 - Num momenmto de divertimento.

Ano 1967 - Com o meu amigo "Chico"
um macaquinho encantador.

Ano 1967 - Caçamos uma cobra que andava por ali tão perto.

Ano 1966 - Com os meus dotes de alfaiate,
arranjando a minha roupa.

Com 5 baixas sofridas pela nossa companhia em combate e com a morte de mais um colega (este por acidente morto por um colega) e também 3 feridos 2 em estado muito grave, dava direito sermos transferidos para zonas mais calmas, o que veio a acontecer com a mudança para o Dondo perto da Beira, onde permanecemos cerca de 13 meses, os últimos da comissão.
Já na Beira tivemos ainda uma outra baixa de um colega, natural de Penafiel, ao ser comido por um crocodilo quando tomava banho num rio. Uma situação que nos chocou muito e que levou algum tempo a sarar esta
ferida.

Ano 1967 - A prevenção era essencial para nos mantermos sempre em vigilância, fosse qual fosse a especialidade que tivessemos.

Ano 1967 - Operação de evacuamento com o Helio em plena mata depois de um ataque.

Ano 1967 - Com o meu amigo "Chico"

Ano 1967 - Grupo dos Condutores da Compahia 1618 (Toupeiras da Selva).

Ano 1967 - Costuma-se dizer em Loriga
o que tapa o frio tapa o calor.

Ano 1968 - Até serviço de secretaria fiz

Ano 1967 - Na pista de aterragem no norte de Moambique

Regressei à Metrópole a bordo do navio "Niassa" em Dezembro em Dezembro de 1968, ao fim de mais de dois anos de comissão, tendo sentido bem no fundo o termo guerra.1968,

Nota Complementar

Com a especialidade de condutor nem tudo era fácil, o primeiro ano na zona de intervenção, o constante rotineiro do transporte de colegas para as zonas de combate, era de estar sempre em constante aviso, no entanto, dou-me por feliz ter tudo terminado bem para mim, o mesmo não o podem dizer as famílias dos meus colegas que tombaram em combate e dos outros meus colegas feridos.

* José Nunes Dias


Carlos Mendes da Costa *
Comissão em Angola 1971 -1973

Entrei para a tropa na Guarda em 1971 tendo tirado a especialidade de atirador. Logo após tirar a especialidade fui mobilizado no Batalhão 3856 passando a pertencer à Companhia 3440. O destino do nosso Batalhão foi Angola para onde embarcamos no navio "Vera Cruz" em Setembro de 1971.
Chegados a Angola fomos para a "Funda" zona de Catete, onde tiramos ainda um outro i00. Para depois sim seguirmos para a região do Leste de Angola, uma das zonas, na altura, mais activa militarmente. Estivemos muito tempo em Chimbila.

Estive sempre praticamente em campanha de guerra. Foram muitas as comissões pelo mato, normalmente todas elas bem sucedidas. Devo confessar que alguns tiros me passaram ao lado por vezes muito perto, mas graças a Deus tive sorte.

1971 - Com o José Freire de Brito do Muro-Vide

1971 - Com a minha arma inseparável com o diagrama e respectivo cartucho balista

1971 - Numa operação em "Bico do Pato" (Lumege)

Tenho para mim o momento mais marcante quando no dia 1 de Maio de 1972, morreram 9 dos nossos camaradas pertencentes à companhia CCS do Batalhão, que caíram numa emboscada e foram apanhados desprevenidos. Primeiro uma granada de fumo para logo de seguida um fogo infernal de todos os lados que não deu hipótese de reacção e assim perdemos os nossos colegas. Nessa altura a minha companhia estava também em operação nessa zona e foi com grande tristeza e revolta ao termos conhecimento do que se tinha passado com os nossos camaradas, da companhia CCS do Batalhão.

1972 - Com o veiculoo chamado arrebenta minas

1971 - Fotografia antes de partirmos para uma operação.

1971 - Em Barraca (Catete).

1972 - Em Chimbila.

1971 - No navio "Vera Cruz" na ida para Angola.

1972 - Com o meu colega Manuel Martins da Silva (de camuflado)
natural de Apólia, que morreu junto a mim perto do Dala,
saltou do "Unimogue" para salvar todos os seus camaradas.

1972 - Junto do monumento dedicado aos tombados em combate.

O melhor tempo que passei da minha comissão foi quando estive no Luso (hoje Luena) a passar um mês de férias, por ter recebido um prémio do "O soldado mais bem comportado da companhia".
Foi um mês inesquecívelmuito e bem passado, onde me encontrei com o amigo Adelino "Palha" o Cabo Pina como assim era muito conhecido por toda a cidade. Passamos belos momentos e a quase todos os dias tínhamos as nossas "Migas". Nessa estadia na cidade do Luso estava adido à Enfermaria militar no Hospital da cidade, fazendo serviço de
"maqueiro" ocupação que me marcou por ter que conviver com feridos e mortos.

Um dos encontros com gente de Loriga que eu recordo com emoção, foi quando eu e o Adelino Pina "Palha", encontramos o senhor António Benito, motorista da Tecnil e da JAE, que trabalhava na construção de estradas. Recordo as palavras quando me viu "Ó Lóló dum raio também andas por aqui".
O "Ti António Benito" era já uma pessoa castiça naquela região, ele deslocava-se para todo o lado sem precisar de escolta, era já muito conhecido. Na altura chegou-m a dizer "Estou com ideias de regressar para a Metrópole, porque aqui já me anda a cheirar muito à pólvora". Pois ele sabia o que dizia, porque na realidade passado poucos anos tudo modificou. E ele regressou mesmo, segundo creio em 1975/76.

1971 - Com um "Cafeco" a minha lavadeira da roupa.

1971 - Na cidade do Luso com o amigo Adelino Pina a refrescarmos a garganta.

1971 - O navio "Vera Cruz" que me levou para Angola.

Regressei à Metrópole em 12 de Dezembro de 1973 viagem de avião, demoramos cerca de 8 horas em contraste com a ida que demoramos 9 dias de barco.

Nota Complementar

Passei uma comissão em sobressalto, as missões militares sucediam-se umas atrás às outras e nos primeiros anos de regresso à Metrópole, pareceu-me viver sempre comigo tudo por aquilo que passei, o barulho das armas a disparar sempre na minha mente e imaginação que me parecia lembrar estar ainda na África, tudo isso parecia custar a desaparecer.
Recordo aqui um episódio que passei ainda em 1990, portanto cerca de 15 anos depois de ter regressado da guerra. Estando eu a trabalhar em Israel numa fábrica de Textil, um dia quando aviação israelita andava em manobras, aquele barulho de guerra fez-me por momentos voltar a Angola e quando dou por mim estava escondido debaixo de uma das máquinas onde me refugiei, como muitas vezes aconteceu quando em Angola caiamos debaixo de fogo inimigo.

* Carlos Mendes da Costa


António Dias de Brito *
Comissão em Angola 1973-1975

Assentei praça em Agosto de 1972 no CICA 4 em Coimbra. Fui mobilizado para Angola e viajei para essa província ultramarina no ano seguinte 1973, viagem de avião, pois a partir do ano anterior eram assim o meio de transporte dos militares.
Fui para o Leste de Angola para a cidade do Luso (hoje Luena) com destino ao PAD, instalada nesta cidade, unidade de manutenção de viaturas militares.
Curiosamente ao chegar a esta cidade eu parecia-me já familiarizado com ela, ainda em Loriga e em conversa com o Adelino Pina (Palha) que tinha acabado de chegar daquelas paragens, deu-me praticamente a conhecer a cidade do Luso, porque também tinha sido ali que cumpriu a sua comissão.

Tive a minha guerra como militar de retaguarda, devo dizer que tive a sorte de ter passado uma boa comissão. No entanto, reconhece que tal sorte não tiveram outros meus camaradas de tropa, principalmente os que andavam em operações, por aquilo que via quando recebíamos na unidade as viaturas bastantes danificadas por motivo das explosões de minas.

Ano 1973 - Descanso do guerreiro.

Ano 1973 - Na unidade junto ao refeitório

Ano 1974 - Ajuda comunitária

Ano 1974 - A posar para a fotografia

Encontrei-me com alguns conterrâneos que aqui registo alguns desses encontros com fotografias. Já sabia que estava radicado nestas paragens do Leste de Angola o senhor António Benito, motoristas da Tecnil na construção de estradas. Um belo dia encontrei-me com ele e como se poderá adivinhar foi uma festa. Foi pena não ter registo de fotografia desses nosso encontro.
Era já uma pessoa muito conhecida, sabendo-se até que se movimentava por todo o lado sem escolta, numa maneira prática de se ter consciência que os nosso inimigos eram dele amigos.
Voltou para a Metrópole também nessa altura do meu regresso e poucos anos depois faleceu.

Ano 1973 - Com o Fernando "Ginásio" hoje invisual a viver da Casa do Repouso da N.S.Guia, o Eduardo "Boto" e eu, por altura do Natal que passamos juntos.

Ano 1973 - Cidade do Luso encontro de serranos loriguenses
Fernando "Ginásio, Eduardo "Boto" e seu seu irmão António José e eu.

Ano 1973 - Cidade do Luso Fernando "Ginásio e eu, agachados.
De pé os irmãos "Boto" Eduardo e António José que era capitão.

Ano 1974 - Na cantina como coelgas refrescando as gargantas.

Ano 1974 - Num jardim da cidade do Luso com um colega.

Ano 1974 - No Sanzala "Kimbo" Mandrebo em convívio com a comunidade.

Ano 1974 - Com o meu amigo Jamba.

Ano 1973 - Com o Fernando "Ginásio" a passear-mos numa rua do Luso.

Ano 1973 - No rio Luena os "Cafecos" a banharem-se.

Durante algum tempo fiz parte do Canto Coral da igreja local. Uma ocupação complementar que tanto eu como os meus camaradas gostamos imenso de ter, que nos fez estar espiritualmente sempre com Deus e importante nesta fase das nossa vidas.

Ano 1973 - Grupo do canto Coral da Igreja local.

Nota Complementar

Regressei à Metrópole em 25 de Abril de 1975, também de avião uma depois de ter acontecido a revolução dos cravos e a queda do regime fascista. Quando saí de Angola em alguns lados já estava em marcha alguma confusão que veio a culminar com a guerra civil, que viria assolar durante muitos anos aquela província.


António Dias de Brito
1º. Cabo do PAD cidade do Luso (hoje cidade do Luena)

* António Dias de Brito


Carlos Florêncio Palas
(1948-1991)
Comissão em Angola 1970-1972
(Falecido em 27 de Dezembro de 1991)

A morte arrebatou à vida era ainda muito novo, apenas com 43 anos. Foi um combatente da Guerra do Ultramar, fazendo a sua comissão por terras de Angola. Aproveitando esta rubrica "Guerra do Ultramar" quero aqui homenagear a memória de meu pai, com estas fotos que a família guarda religiosamente e com muitas saudades. Recordo que o meu pai assentou praça em Aveiro e foi para Angola em 1970.

* Maria da Guia Pala Coutinho

Ano 1969 - Em Aveiro ainda na recruta com o Pedro "Santinho"

Ano 1970 - Já em Angola desmantelamento de uma mina.

Ano 1970 - Nos primeiros tempos em Angola.

Ano 1970 - Ainda nos primeiros tempos em Angola.

Ano 1971 - Na cidade do Luso (hoje Luena)

Ano 1971 - Na cidade do Luso com o Adelino "Palha".

Ano 1971 - Acompanhado com a lavadeira como era costume nos militares

Ano 1971 - Com os seus camaradas em trabalhos no acampamento.

Ano 1970 - Em serviço de solidariedade para com a comunidade local.

Ano 1970 - Em operações. militares pelas terras do Leste de Angola.

Ano 1971 - Foto no Aquartelamento no Leste de Angola.

***

Nota Complementar *

Fui amigo do Carlos que o recordo com saudade. Está em mim ainda presente o dia que fomos à inspecção (1968) e a nossa alegria de termos ficado apurados. O Carlos "Pirola" como popularmente era assim chamado era daqueles verdadeiros amigos, que nos deixam algo e o Carlos deixou-nos aquela maneira própria de brincalhão, a sempre contagiante boa disposição e ainda a sua bondade.
Quis o destino que o encontrasse em Angola, quando cumpria-mos a comissão por terras do Leste dessa província. O Carlos estava de passagem pela cidade do Luso (hoje Luena), inclusive, durante toda a nossa comissão em Angola estivemos sempre em contacto um com outro, através da correspondência que regularmente trocava-mos. Lembro até que no ano de 1970 o Carlos fez parte com a sua assinatura na carta que enviei, ao senhor Padre Barreiros, numa mensagem recordando a Festa da Nossa Senhora da Guia, que depois o senhor padre teve a amabilidade de ler na cerimónia da missa nesse dia da festa da Senhora da Guia.

Carlos Florêncio Palas
(1948-1991)

A sua passagem pela cidade do Luso, deu-se porque a sua companhia estava exausta de tanto lutar pelas terras do Leste, ao fim de muitos meses, por isso e merecidamente, foram transferidos para zona menos perigosa e foi nessa movimentação de mudança que com ele me encontrei nessa cidade, onde eu cumpria a minha comissão e assim passamos uns belos momentos de convívio e de amizade, que ficaram registados nas nossas vidas através das fotografias que tiramos e que fazem hoje parte de recordações e saudade.
Lembro os seus relatos impressionantes das operações pelo mato, vivendo diariamente lado a lado com o perigo, por isso ele e os seus camaradas tinham sempre presente o que era muito usual em guerra, o lema de
"viver um só dia de cada vez".
Foi um choque, quando em 1991, estando eu em terras distantes soube do falecimento do amigo Carlos que nos deixou cedo demais. Veio-me à recordação os nossos tempos de meninos, de adolescentes e depois homens. Mais chocante foi que ao voltar a Loriga, meses mais tarde, notar a falta do amigo Carlos "Pirola", aquele vazio da sua presença, aquele sorriso e o abraço de amizade que nos unia e que a partir de então deixamos de dar.

* APina


José Pinto Lages *
Comissão na Guiné 1968-1970

Assentei praça em Vila Real (Trás os Montes) no 23 de Outubrode 1967 em Vila Real de Tràs os Montes no R.13 com o número mecanográfico 082057/67.
Passei depois pela Póvoa de Varzim no 1ºGrupo C.A.M., seguindo para o Batalhão de Telegrafistas em Lisboa, com passagem pelo B.C.5 em Campolide.
Tirei a especialidade de cozinheiro, fui mobilizado para a Guiné em Maio de 1968 tendo embarcado em 11 de Agosto de 1968, no navio "Uige".
Fiquei em Bissau capital da Guiné onde me mantive durante toda a comissão. Posso considerar de privilegiada a minha comissão na província ultramarina na altura a mais complicada militarmente falando.
A minha especialidade era cozinheiro sendo o meu local de luta a cozinha e as minhas armas as panelas e tachos. Fui depois escalado para o Depósito de Géneros de Abastecimento, que como se pode compreender passei a estar ainda melhor, então sim estava nas minhas
"sete quintas".

Ano 1968 - Descascar as batatas, fazer a comida, ensinar os mais novos e ter as panelas e tachos sempre aprumados e esmerados, era o lema que se tinha que ter.

Estando eu na cidade de Bissau, ponto central das movimentações militares na Província da Guiné, escusado será dizer que me encontrei com muitos amigos e conterrâneos e assim podemos passar belos momentos dos quais tenho gratas recordações. Um outro conterrâneo com quem me encontrei foi com o Zé "Bentinha" só que não tenho o registo de fotografia.

Ano 1969 - Com o José Brito Ramos (falecido em Março de 1994) foi meu cunhado e com quem passei belos momentos na Guiné e, do qual tenho gratas recordações. O Zé Ramos, era sem dúvida diferente, em que a sua sempre boa disposição contagiava todos os seus colegas e amigos.

Ano 1969 - O Carlos Ramalho, eu e o João da Clara

Ano 1969 - Eu com o Carlos "Verdasca"

Ano 1969 - José Augusto Dias, José de Canas, eu e um amigo do Zé Canas

Ano 1969-Eduardo Domingos, Tonito Melo, eu, Zé "Canas" e Carlos "Verdasca"

Ano 1970 - Bissau, junto de um monumento

Ano 1969 - Numa "Miga" com os meus camaradas

Nesse período da minha comissão, a Guiné era na altura, a província ultramarina mais complicada da Guerra do Ultramar, segundo se sabe era onde se registava mais baixas para o exército português, quase diariamente isso acontecia. Era governador e comandante-chefe das Forças Armadas da Guiné, o General António Spinola, que apesar das tentativas para minorar a situação, parecia que nada a fazia alterar.
Em Bissau era corrente ouvir-se os mais variados relatos das lutas travadas pelos matos, muito significativo eram as comissões junto das fronteiras dos países que faziam fronteira, inclusivamente, o nosso exército por várias vezes chegou a fazer incursões para lá do limite da fronteira, o que criou mesmo alguns dissabores ao governo português
.

Ano 1969 - Também eram um dever o serviço à Comunidade local.

Ano 1969 - Em serviço ocasional e momento de posar para a fotografia .

Ano 1969 - Em serviço ocasional

Ano 1969 - Numa "Miga" com uns amigos.

Ano 1960 - O navio "Uige" que me levou à Guiné.

Nota Complementar

Regressei à Metrópole mais própriamente ao R.S.S. em 3 de Outubro de 1970. Infelizmente nem todos tiveram a sorte que eu tive, em fazer a comissão sem preocupações e sem necessidade de andar pelos matos, no entanto, devemos recordar todos aqueles outros que não tiveram tal sorte.

José Pinto Lages
Soldado 241 (1967-1969)

* José Pinto Lages


José de Moura Carreira *
Comissão em Moçambique (1964/1966)

Dei entrada na Escola Prática de Infantaria Infantaria - EPI, no dia 20 de Janeiro de 1963 em Mafra, a fim de iniciar o Curso de Oficiais Milicianos - COM, o que me forçou a abandonar os estudos no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, onde fui calouro com o Engº Carlos Jorge Reis Leitão, loriguense, destacado técnico da Junta Autônoma de Estradas, a quem devemos, em grande parte, a construção da Estrada que da Portela do Arão que segue para a Torre.
O Serviço Militar Obrigatório, acrescido de uma inusitada situação vivenciada nas antigas Colônias, então denominadas de Províncias Ultramarinas - por razões meramente eufemísticas - arrancava-nos dos nossos sonhos, forçando-nos a defender interesses outros, no mais das vezes escusos. Após seis meses de intensiva preparação militar e de uma especialização em Transmissões de Infantaria, fui promovido a Aspirante a Oficial Miliciano, em Julho desse mesmo ano, tendo sido designado para permanecer em Mafra, onde deveria dar uma Recruta, aos soldados recém entrados naquele quartel.
Para quem estava habituado a uma vida de estudante, e pouco afeito a atividades físicas, afora uma úlcera duodenal hemorrágica que me perseguia desde os 17 anos, foi um tempo difícil, que a memória teima em não esquecer. Não bastasse a úlcera, que não foi suficiente para me livrar do Serviço Militar, em uma Junta Médica, fui vítima de uma Pleurisia, quando nas Manobras Militares de fim de Curso, o que me obrigou a passar exatos 100 dias no Hospital Militar da Estrela. Volvidos esses 100 dias, recebo ordens para, novamente, me apresentar em Mafra. Lá chegando, fui informado que deveria seguir, de imediato, para Évora, mais propriamente para o RI-16, onde o meu Batalhão aguardava embarque. Ledo engano, o Batalhão de Caçadores 558, ao qual me deveria juntar, havia partido de Tavira para Lisboa, na manhã desse mesmo dia, a fim de embarcar no Niassa, rumo a Moçambique, no dia seguinte, pela manhã, informação que me foi repassada pelo Oficial de Dia, Tenente Varão, quando a ele me apresentei na Sala de Oficiais, pelas 14 horas desse 22 de Novembro de1963.

Simultaneamente à informação de que o Batalhão estava a caminho de seguir viagem para Moçambique, escutamos, todos os que na Sala de Oficiais se encontravam - através da Emissora Nacional - uma notícia que haveria de abalar o Mundo. O Presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy havia sido brutalmente assassinado, em Dallas.
Com a partida do Batalhão, entrei de licença, por 10 dias, a fim de me despedir dos familiares, e adquirir o fardamento próprio do Ultramar. Decorrido o prazo da Licença, retorno a Évora, e, uma vez lá, passo a aguardar embarque, o que viria a ocorrer a15 de Janeiro de 1964, no navio Império.
De 22 de Novembro de 1963 a 6 de Janeiro de 1964, permaneço em Évora, com a obrigação de cumprir alguns "Oficiais de Dia" , algumas "Rondas", afora a lavratura de um "Inquérito de Corpo de Delito" que me coube levar a efeito, pelo menos enquanto lá estive.
Em Évora, posso afirmá-lo, levei uma vida mansa. Aproveitei para conhecer a cidade, seus Museus e Igrejas, e, por que não dizer, algumas belas e gentis moças eborenses, tão do agrado da gente da minha faixa etária.
No que respeita a acomodações, o quarto destinado aos oficiais, no RI-16, era amplo. Tinha duas camas, duas mesinhas de cabeceira e dois armários. além de uma mesa que servia de secretária Fui o segundo a ocupá-lo, pois já lá estava o Aspirante Milº António, que por coincidência era de Sazes da Beira, e, como havia frequentado os Seminários do Fundão e da Guarda, conhecia, praticamente, todos os estudantes seminaristas de Loriga. Senti-me, logo, desnecessário será dizê-lo, em casa. Pouco, bem pouco, foi o tempo que convivemos, pois, em menos de 10 dias seguiu para o Ultramar, mais propriamente para a Guiné. Ao retornar do Ultramar, soube pela minha tia Aurora - que havia conhecido a Mãe do Aspirante António, creio que num dos Cursos de Cristandade - que ele havia sido morto em combate, na Guiné. Que o Senhor Deus o tenha em paz, lá onde se encontra!
Um soldado, conhecido pelo nome de Loriga, fazia parte do contingente do RI-16. Logo que soube que eu estava de Oficial de Dia, no dia seguinte à minha apresentação, dirigiu-se a mim, contando as peripécias que havia aprontado, razão pela qual fora punido pelo Capitão Comandante da sua Companhia, punição essa que o impedia de sair do quartel por um sem-número de dias. Logo entendi a sua intenção e apressei-me a assinar uma "Autorização de Saída", não sem que antes lhe determinasse que não me colocasse em "check", de vez que eu estava desfazendo as ordens do Capitão.
Foi sempre gente fixe, esse tal soldado Loriga, que, hoje, volvidos mais de 46 anos, não consigo identificar. O capitão, de castigo, colocara-o no Rancho, que, a meu ver, era onde mais se trabalhava, no quartel. Do soldado Loriga, não mais tive notícias, exceto pelo fato de haver dito ao meu saudoso tio Zé Moura, que o Aspirante Carreira havia sido um "gajo porreiro", com ele, quando serviu no RI-16.

A viagem, não fosse o mau tempo que pegamos de Lisboa para a Ilha da Madeira, e do péssimo que tivemos ao dobrar o Cabo da Boa Esperança - para nós mais Bojador que da Boa Esperança, por razões óbvias - não deixou de ser maravilhosa, face o inusitado da mesma, pese embora o destino final e a saudade que carregávamos na alma.
Funchal, São Tomé, Luanda, Benguela, Moçamedes e Cape Town foram as cidades a que aportamos, antes de chegarmos a Lourenço Marques, hoje, Maputo. Em São Tomé encontrei o Furriel Milº Crisanto, um colega de Colégio, em Coimbra, que lá cumpria a sua Comissão. Em Luanda, um emissário do meu saudoso primo António Moura (ex-dono da Cabana do Pastor e da Albergaria Nª Sª do Espinheiro, que se encontrava fora daquela cidade, a serviço), procurou-me para me entregar um belíssimo isqueiro Ronson, gravado com o meu nome, o qual, ainda hoje, enfeita uma das estantes de minha casa. Em Luanda, como de praxe, reunimo-nos no Café Paris, ponto de encontro do pessoal dos diversos Cursos de Oficiais Milicianos, onde obtivemos as primeiras e mais consentâneas informações da Guerra em Angola, já que as que eram publicadas, nos jornais, não nos mereciam confiança. Em Cape Town - cidade bastante desenvolvida, com traços acentuadamente europeus - meio desconfiados e temerosos, observávamos, de longe, aquelas esculturais mulheres negras, já que o rígido Apartheid assim o impunha, conforme prévia orientação, recebida, no navio, de tarimbados tripulantes, afeitos à arte da sedução.

Chegado a Lourenço Marques tive como destino o Norte da Província, mais exatamente, a Mueda, Cabo Delgado, a uns 60 km de Tanganica, hoje Tanzânia. Em decorrência do exposto, deveria viajar, dentro de três ou quatro dias, no mesmo navio Império, até Porto Amélia, onde aguardaria a chegada do Niassa, que trazia duas Companhias de Caçadores, a CCaç 607 e a CCaç 613, que integrariam o Batalhão de Caçadores 558, do qual eu viria a ser o Oficial de Transmissões, Batalhão de Caçadores 558, cujo lema era "Forte, porém Justos". E assim foi. Novamente embarco no Império, rumo a Porto Amélia, com escalas na cidade da Beira, Ilha de Moçambique e Nacala.
Em Porto Amélia, banhei-me pela primeira vez nas águas do Índico, na enorme e bela baía de mesmo nome. Ainda em Porto Amélia, comecei a sentir os primeiros calafrios do que viria a ser uma fortíssima malária que quase acabou comigo, não fora os cuidados e a competência profissional do, então Alferes Miliciano Torres dos Santos, médico da CCS do Bat. Caç 558. Após uma semana em Porto Amélia, hoje Pemba, novamente embarco no Niassa, que me levaria a Mocimboa da Praia, último porto antes da minha chegada a Mueda, o que ocorreu no dia 22 de Fevereiro de 1964.

Vista aérea do Quartel da Mueda (1964)

Vista aérea do Quartel da Mueda (1964)

A rigor, Mueda circunscrevia-se ao Quartel, ao Campo de Aviação, ao Posto Administrativo, a uma Escola e pouco mais. Em meio a cerca de 800 militares, descobri que apenas conhecia um Alferes Miliciano, um Sargento e um Cabo, afora um civil. O Alferes Milº Antunes, meu companheiro do Curso de Oficiais Milicianos, o Sargento Romano, o Cabo Aparício, da CCaç 607, e o Mecânico Farrancha, todos loriguenses, à exceção do primeiro.
Tendo em vista havermos chegado a Mueda por volta da meia-noite, somente no dia seguinte tomei contato com o meu Pelotão de Transmissões, bem como com os demais integrantes da Companhia de Comando e Serviços.

Ano de 1964 - Algures no norte de Moçambique com o Pelotão, numa Operação de Reconhecimento.

Meu pelotão era, como disse, composto da brava e boa gente, oriunda das planícies alentejanas, possuidora de fino trato, sempre pronta a bem servir, mesmo em condições as mais difíceis. Sabiam, como ninguém, revertê-las com o hábil uso de suas palavras ou de seus graciosos gestos. A eles, devo, sem dúvida, boa parte dos momentos mais agradáveis que em terras de Moçambique passei. Do Pelotão de Transmissões, faziam parte dois Furriéis Milicianos, meus braços-direitos: o Furriel José Marques e o Furriel Rogério Duarte, ambos muito atenciosos. O Zé Marques, natural do Porto, e, o Rogério, de Elvas. Com eles tive o melhor relacionamento possível, pois foram sempre cumpridores dos seus deveres, quer quando desenvolveram atividades nas Telecomunicações, quer quando trabalharam no Centro Cripto. Graças ao desvelo e competência profissional de ambos, nunca tive, com eles, qualquer tipo de problema.

Ano 1965
Numa Operação de Reconhecimento com o guia Lázaro.

Ano 1965
Ano de 1964 - Uma pausa numa Operação de Reconhecimento.

Ano 1965
Dois dentes de Elefantes resultado de uma bem sucedida caçada, comandada pelo Sgt. Romano, loriguense de 7 costados
.

Muito embora sentíssemos que o clima começava a tornar-se pesado, no que dizia respeito ao relacionamento com a população - cada vez mais arredia - nossa Comissão ia sendo levada sem maiores problemas até Agosto 1964, data considerada como o início da luta armada no território moçambicano. A morte do Padre Daniel, da Missão de Nangololo, próximo a Mueda, a 24 de Agosto, em consequência de um ataque da guerrilha, promovido pela FRELIMO, foi, indubitavelmente, o estopim da Guerra em Moçambique.
Em uma das Operações Militares, conjuntas, Exército-Aeronáutica, um outro loriguense, o Cabo Paraquedista José Pinéia, nome pelo qual era conhecido em Loriga, esteve conosco em Mueda. Filho de um primo de meu Pai, foi uma satisfação revê-lo, naquele fim de mundo, e com ele trocar impressões.

Ano 1965
Com o Oficial de Ligação com a Força Aérea, a caminho de Nampula, juntamente com o Ten. David (da FAP) e o Alferes Oliveira.

Ano 1965
Em Nampula, com oficiais do SPM. À minha esquerda, o Asp. Milº Neto, que, no início da década de 60, foi chefe dos Correios de Loriga.

À medida que o tempo passava, os ataques guerrilheiros tornavam-se mais freqüentes e ousados, obrigando o Batalhão e suas Companhias Operacionais a esforços redobrados, sem, contudo, evitar o incremento de nossas baixas. Volvidos 12 meses, o Batalhão estava moral e fisicamente abalado, com um saldo de 17 mortos (2 Furriéis Milº; 6 Cabos e 9 Soldados), além de 70 feridos (6 Alferes Milº, 1 Sargento, 7 Furriéis Milº, 9 Cabos e 47 Soldados), o que determinou o seu remanejamento para Vila Pery (CCS), Lourenço Marques (CCaç 607) e Dondo (CCaç 613), em Agosto de 1965. Em Manica e Sofala, longe das agruras de Cabo Delgado.
O Batalhão aos poucos refez-se moral e fisicamente, aguardando o embarque para a Metrópole, o que veio a ocorrer a 10 de fevereiro de 1966, data em que a Companhia de Comando e Serviços do Bat. Caç. 558 desfilou no Estádio do Clube Ferroviário de Lourenço Marques, juntamente com outros agrupamentos militares, após o que embarcou no navio Vera Cruz.

Ano 1965
Com o Fur. Milº da FAP, Luís Fernando, que respondia pela Logística do Destacamento da FAP, em Mueda.

Ano 1965
Com o "Jóia" mascote do Batalhão, a exigir-me o boné

Ano 1965
Com o "Jóia" numa Instrução de Armamento.

As Companhias operacionais CCaç. 607 e CCaç. 613, permaneceram, ainda, em Moçambique, na Praia Vermelha (L. Marques) e no Dondo, próximo à cidade da Beira, aguardando embarque, o que veio a ocorrer em meados do ano de 1966. Fazendo parte de outros Batalhões ou Companhias independentes, foram meus companheiros de viagem o Cabo Tó Zé Cabral Leitão, o Cabo Ferrão e o Cabo Joaquim Dentinho, como conhecido em Loriga, estes dois últimos, meus companheiros da quarta classe, da turma de 1954, do saudoso Prof. Marques.
Quando de passagem pela cidade da Beira, a caminho de Lourenço, visitei, e acabei ficando hospedado por uns quatro dias, em casa dos meus primos Terezinha e Manuel Rebelo, onde fui tratado como um príncipe. Ela farmacêutica e professora de Química do Colégio Sacré Coeur - filha de meu primo Artur Paulo - e ele, alto funcionário dos Caminhos de Ferro da Beira, ambos já falecidos A Nelinha, filha deles, estava às vésperas de viajar para Lisboa, onde iria freqüentar o Instituto Superior Técnico, enquanto que o Fernando Manuel, no auge dos seus 14 anos, bem vividos, permaneceria na Beira, para satisfação das meninas daquela cidade. À exceção da Nelinha, que a vi uma vez, em Loriga, e que nos deu a satisfação de estar conosco, em Belém do Pará, em 2004, não mais os vi, desde então.

Ano 1965
No jeep da Administração, com o Administrador e os alferes Oliveira e Diamantino, este, velho companheiro de Coimbra
.

Ano 1966
Na Festa do 2º Aniversário da Comissão, em Vila Pery, com o Ten. Capelão, o Alferes Oliveira, o Capitão Cmdt. da CCaç de Vila Manica e um Alferes daquela Companhia.

Ano 1964
Bem acompanhado na Boîte do Navio Império

Ano 1965
Bem acompanhado, numa das praias de Benguela

Foi ao alvorecer do dia 1 de Março de 1966, que avistamos a tão sonhada Costa do Sol, Lá estavam, como que a saudar-nos, as cidades de Cascais e do Estoril, o Farol de São João da Barra, e inúmeras outras praias, antes de aportarmos na Doca de Alcântara, em Lisboa, onde inúmeros familiares e amigos aguardavam por nós. O primeiro a ser avistado foi o meu tio Zé Moura, que distante dos demais, a eles se juntou, sempre com o chapéu erguido bem alto, para que eu melhor pudesse acompanhá-lo, na sua trajetória. Na ânsia de não o perder de vista, pedi emprestado os binóculos do Padre Capelão, e do convés do Vera Cruz - que havia lançado suas amarras para o porto - revi, um a um, todos quantos por mim aguardavam. A festa só não foi completa, em face da ausência de meus pais e irmãos, nessa altura, radicados no Brasil. Ao desembarque e aos cumprimentos seguiu-se o desfile militar. Eram já 12 horas, quando nos dirigimos para o apartamento dos meus tios, na Oscar Monteiro Torres, onde fui brindado por um lauto banquete, a que não faltou o melhor dos vinhos e o melhor Champanhe francês. À tardinha, partimos de Santa Apolónia para Évora, onde se processou a nossa desmobilização.

***

A 17 de Agosto parti para o Brasil, a fim de rever meus pais, irmãos e demais familiares, tendo em mente retornar a Portugal, um mês após. Por essa razão, deixei de trazer os endereços de meus companheiros de arma, o que me impossibilitou manter, com eles, qualquer tipo de contacto.

Somente volvidos 42 anos, consegui contato com alguns deles, graças aos avanços tecnológicos, proporcionados pela Internet. Foi, novamente, uma enorme satisfação ouvir deles a voz, e sabê-los bem, muito embora, todos eles, como eu, em parte alquebrados pelo peso da idade. Em particular, enorme satisfação, foi, sem dúvida, escutar a expressão de espanto do Alferes Antunes - hoje Coronel, reformado, da Guarda Nacional Republicana, e ex-Comandante do Batalhão de Gouveia, a quem a Guarda de Loriga estava subordinada - quando exclamou: "Ó Carreira, em vão, procurei-te por toda a parte!...". Alegria imensa foi, igualmente, o contato telefônico que tive com os Furriéis Milicianos de Transmissões, com quem mais de perto convivi, nesses dois longos anos de Comissão. Com o Alferes Neto - hoje, Juiz Conselheiro, jubilado, do Supremo Tribunal de Contas e do Supremo Tribunal de Justiça - e com sua esposa, Maria Helena (na casa de quem almocei, inúmeras vezes, em Mueda e em Vila Pery), tenho tido permanente contato, recordando o gesto de amizade que sempre me dispensaram, e as delícias dos manjares preparados por Maria Helena, bem diferentes dos que, cotidianamente, "saboreava" na Messe de Oficiais.


Nota Complementar

Nem todos os "velhos" companheiros de Comissão permanecem, ainda, entre nós. Quis Deus levar alguns deles para a sua Mansão Celestial, de onde, certamente, intercedem a nosso favor. Que o Senhor Pai do Céu lhes conceda o Eterno Descanso, como prêmio maior, por tudo quanto de bom souberam semear, ao longo de suas existências.
Aqui registo "Retalhos de Minha Vida Militar", não sem que antes renda homenagem a todos aqueles que tombaram no sagrado solo de África, em particular de Moçambique, e, mui especialmente, em terras do Planalto dos Macondes.

José de Moura Carreira
(Alferes 1964/1966)

* José de Moura Carreira


Nuno Mendes Alves Pereira *
Comissão em Moçambique (1970/1972)

Foi em Janeiro de 1969, que assentei praça no Regimento de Caçadores Pára-quedistas em Tancos. Durante três meses frequentei o tempo de recruta, seguindo-se o curso de pára-quedismo, também com a frequência de três meses.
Aconteceu o meu primeiro salto em pára-quedas no dia 10 de Junho de 1969, no campo de Arripiado, um espaço de saltos entre as margens do Rio Tejo e Vila Nova da Barquinha. Foi com uma certa alegria e também com um certo orgulho que consegui a "Boina Verde" e o respectivo brevet, uma meta que todos os pára-quedistas desejavam alcançar.
Ainda no ano de 1969 frequentei um curso de combate com uma grande e elevada exigência com uma preparação física realmente invulgar, foram grandes marchas nocturnas com uma G3 mas mãos e mochila às costas e vários exercícios físicos com pesados troncos de madeira que nos deixavam de rastos.
Antes do final desse ano e princípios do ano 1970, fiz um curso de transmissões que culminou na mobilização para o Ultramar para a comissão em Moçambique que aconteceu no dia 4 de Abril tendo com o destino o norte dessa província ao BCP 32 sediado em Nacala.
Quero aqui também recordar, momentos de amizade com outros militares loriguenses com os quais me encontrei em Tancos. - Ernesto Ramalho, Carlos Ferrão, o Toneca e o Carlos Cardoso, este conterrâneo Loriguense/Alvocence.

Aproveito e conto até um episódio passado com o Carlos Cardoso que quando estávamos em Tancos, foi bafejado com a sorte no Totobola, ganhando um prémio, oferecendo a mim e ao Ernesto um passeio de fim-de-semana a Loriga.

Embarquei no aeroporto de Figo Maduro no dia 4 de Abril de 1970 num potente DC da Força Aérea avião de carga com escala na Guiné-Bissau onde estive algumas horas, de seguida mais uma etapa até Luanda Angola, para mais uma escala, aqui a estadia foi um dia e como levava comigo um postal como referência da Praça Serpa Pinto mesmo no coração da bela cidade de Luanda, fui procurar e assim conviver algumas horas com o amigo Zé Paixão radicado nesta bela cidade de Luanda e, com ele fui visitar a marginal de Luanda.

Ano 1969 em Tancos (Recruta)
Com o Ernesto Ramalho e Carlos Ferrão

Ano 1969 - Dia do meu primeiro salto

Ano 1970 em Moçambique. Já muito perto do chão num
dos saltos de uma comissão

No dia 6 de Abril de 1970, aterrava na bonita cidade de Lourenço Marques, capital de Moçambique, após longas horas de voo. Por casualidade encontrei-me com outro loriguense António Ferreira , polícia de profissão e radicado nesta cidade e, na paragem que fiz na cidade da Beira tive também o ensejo de conviver com outros dois loriguenses mais o António Prata Figueiredo o "Tó Vicente" e o Tó Ambrósio ambos dois garbosos pára-quedistas. É pena, mas não tenho registo em fotografia.

Durante dois anos de permanência no norte de Moçambique, ficaram sempre gravados na minha memória bons e maus momentos. Gostei de conhecer a cidade de Tete quando numa operação militar para os lados de Dingoé e Estima, onde se situa a gigantesca barragem de Cabora Bassa e o grande Rio Zambeze. Também gostei de conhecer a bela cidade Porto Amélia com a sua encantadora baía.

Ano de 1970 - Norte de Moçambique
Várias ocasiões estive no planalto dos Macondes
no grande agrupamento militar e teatro de guerra
onde se encontrava um quadro afixado numa
parede que aterrorizava, quem ali chegasse de
novo
"Mueda, terra de guerra, aqui trabalha-se,
luta-se e morre-se"
.

Ano de 1970 - Mueda
Também aqui encontrei outro loriguense
o alferes António Ambrósio.

No ano de 1971 participei na grande operação, talvez a maior operação militar realizada em todo o Ultramar, que foi a operação "Nó-Górdio" , nela participariam milhares de militares dos três ramos das Forças Armadas apoiados também por uma força militar aérea e super visionada pelo então general Kaúlza de Arriaga, sempre com a visão de acabar ou desmoralizar a vontade dos Moçambicanos que combatiam e lutavam pela libertação do seu país, que veio depois acontecer com a alvorada dos 25 de Abril de 1974, conseguida através da nossa própria liberdade e que abriu o caminho à verdadeira democracia, que hoje todos nós podemos livremente viver.

***

***

Foram muitas as operações militares realizadas pelo meu pelotao no norte de Moçambique e aqui algumas documentadas nestas fotos. Lugares como Sangal, Chicôa, Pundanhar, Palma, Nangololo, Estima, Fingoé, Mocimboa da Praia etc., testemunham lutas de combate, de sofrimento, suor e lágrimas, que por isso ficarão para sempre gravados no meu espírito. Mesmo com o cansaço estampado nos nossos rostos o lema era sempre o mesmo "Seguir sempre em frente..."

***

Ano 1970 - Acampamento do Sagal

Ano 1971 Cabo Delgado/Naugololo
No fundo uma antiga Missão Holandesa

Ano 1971 Sagal
Com o meu amigo "Loriga Sagal"

Ano 1971 Cabo Delgado
Material capturado numa operação

Ano 1972 Nampula
Guarda de honra ao presidente do Malawi Dr.Bamda

Pouco antes de terminar a minha comissão e estando para breve o regresso à Metrópole, ainda vi chegar ao quartel e ao meu pelotão o loriguense Álvaro Mendes Pina, já falecido onde lhe dei toda a minha amizade, para se sentir confortável e com a boa vontade de iniciar uma sempre difícil guerra colonial.
Em 16 de Abril de 1972 embarquei em Lourenço Marques de regresso a Lisboa, um vôo com a duração de oito horas, uma grande diferença a contrastar com as mais de 20 horas que levei de Lisboa a Moçambique, dois anos antes

Nota Complementar

O tempo passou, as marcas desse tempo ficaram para toda a vida, marcas cruéis para muitas famílias, que perderam os seus filhos e muitos feridos para sempre.
Etapasda nossa vida, que nunca esquecem...

Nuno Mendes Alves Pereira
(1º. Cabo Pára-quedista 232/68)

* Nuno M. A.Pereira


José Mendes Gouveia *
Comissão na Guiné (1970/1972)

Tinha 14 anos quando NERU invadiu a "Índia Portuguesa" e vivemos intensamente esta história porque três conterrâneos meus tinham ficado prisioneiros de Guerra. Lembro a chegada deles á Terra e não gostei da forma como vinham vestidos, achei que mereciam muito mais que aquilo que lhes deram. Política à parte, deve ter começado aqui a minha aversão a fardas militares. Pouco depois começam os embarques para Angola, Moçambique, Guiné, e cada ano que passa mais próximo fica de mim. Em 1967 fui apurado e logo ali meti os papéis para ficar de fora uma vez que era amparo de mãe.
Fui incorporado em Outubro de 1968, fiz recruta no RI10 Aveiro segui para os Rangeres em Lamego (obrigado) dei baixa ao hospital militar do Porto e de seguida sou enviado para o Regimento de Transmissões no Porto (Janeiro de 1969) onde tirei a especialidade de Radiotelegrafista, "esteve ali comigo o Loriguense Carlos Ramalho"
Fim de Junho de 1969 Sou colocado no Batalhão de Transmissões da Graça (Lisboa) e dai a meu pedido para o RAL 1 para ficar mais próximo da família.

No RAL1 é mobilizado o sobrinho do Segundo Comandante e o pai ofereceu-me 500 contos para ir no lugar do filho para a Guiné, respondi que pró dinheiro nenhum, ainda subiu a parada mas mantive o não. Passados 10 dias saiu a minha mobilização, ai pensei que não queria o dinheiro ia de borla. (sabemos o país que temos) Andei furioso, quis fugir, revoltei-me, invoquei o amparo de mãe, nada feito, em Fevereiro de 1970 lá vai ele no HUIGE.
Encontrei na Guiné o tal sobrinho e fiquei um pouco melhor na minha revolta


Não foi por Ela que fui à Guerra, foi pelo medo de não a voltar a ver: Quem fugia separava-se de tudo mesmo daqueles que mais amava, e a ditadura já ia em 40 anos e estava de pedra e cal. E por isso era necessária muita coragem para fugir, não cheguei a tanto, mas era o melhor que fazia era fugir.

Quero aqui agradecer aqueles que acreditaram e tentaram servir a guerra, é talvez a eles que devo o meu regresso intocável: mas a minha admiração vai para aqueles que fugiram e disseram NÃO á guerra. Só para que conste, o meu amparo de mãe foi rejeitado porque a casa da minha mãe tinha frigorifico, televisão, uma casa rica. Gostava de ver onde vivia o oficial que lá foi? Em quatro anos de tropa só conheci dois oficiais do quadro que mereceram o meu respeito: Capitão Almeida (Aveiro) Capitão Cordeiro (Guiné). È evidente que ressalvo aqui os milicianos.

Sou o terceiro da esquerda da mesa.
Ainda hoje não sei porque tive direito a um camarote, mas a maioria ia num porão, muito escuro, sem ar, tudo vomitado, efeitos da viagem, as camas eram umas tábuas onde só era possível deitar - deitado (difícil) a palha toda moída, fiquei doente só de ver. E vi porque um amigo de Manteigas preferia dormir ao relento, o que despertou a minha curiosidade.
Nem aos ratos desejei tal habitação.

Lá se vai a carne, o frango era só ossos,
Fome, Peste e Guerra. Talvez não vos pareça
mas o da Esquerda sou EU.
Como é que há homens que gostam disto????

Tinha os meio "Rádios colocar musica na caserna era canja. Só emitia relatos de Futebol e canções proibidas. Vampiros e não só. Zeca e Adriano sSEMPRE
Era a minha vingança e um hino à Liberdade
Emissores" Tinha o gravador as cassetes...

Bem sei que na morte todos somos uns santos etc.. etc… Só espero que compreendam que fui condenado ao degredo, pior a um sofrimento permanente sem fazer mal a ninguém.
Fiz Festa, FIZ. Arrependido não estou. Faria o mesmo hoje. Só estou a ser sincero espero que me perdoem a franqueza.

Cidade de Bissau

Loriguenses - Eu, Zézito Italiano e Mário Amaro

Aqui passei 8 meses da minha vida, na casinha assinalada onde apesar de tudo era REI. Mas as imagens que vêem são deste quartel, PICHE - GUINÈ a morte estava sempre presente, todos os dias havia cadáveres na capela, e só lá colocavam os brancos. A força inimiga já era muita, mas não foi por isso que ganharam como "ELES" "PAIGC" dizem. Ganharam porque os nossos militares ganharam consciência do seu papel nesta guerra, e só lutavam em ultimo recurso.

Agradeço ao Combatente do PAIGCV que conseguiu colocar 40 morteiradas em volta do posto de Rádio e não feriu ninguém: isto valeu-me o regresso a Bissau. O comandante mostrava os postos de rádio ao General Spínola e aquele estava parado, no seu orgulho deu-me voz de prisão, e EU tirando proveito da presença do General fiz-lhe cumprir a palavra, e vim para Bissau no mesmo HÉLI. Claro que não fui preso. A culpa era do "TURRA".

Deixei Bissau em Março de 1972 após 26 meses de comissão e ainda tive que me fazer maluco.
A foto em cima não está aqui por vaidade que não tenho, mas porque tem uma historia que de certo modo tem a ver com Loriga. O Rapaz de amarelo foi caixeiro-viajante e ia muito a Loriga, perguntava pelo AMIGO Gouveia e ninguém conhecia, até que um dia foi à Junta e o saudoso Tó "Pisoeiro" lhe deu o meu contacto e falamos ao telefone muitas vezes. Mas esta vida é madrasta e no dia que eu ia para me deslocar a Cantanhede para visitar o GASPAR recebi a triste noticia do seu falecimento, digamos que é aqui o reencontro que não tivemos. PAZ á sua ALMA.
Na Tropa Gouveia, em Loriga Zé "Bentinha"

***

- Já gora devo dizer que me encontrei também na Guiné com o Zé "Grilo", e o Antonio "Cuco" só que não tenho registado em fotos.

- Chamo-me José Mendes Gouveia, em Loriga Zé "Bentinha " II
O Zé Bentinha II e o Zé Bentinha I de boné

Nota complementar:

…………………….. SOFRI MAS VENCI!

* José Gouveia

http://www.youtube.com/watch?v=aWQOqalOIkE&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=qqpA_8OVsL4&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=wrpS3h_ydIU&feature=related

http://zecafonso.com.sapo.pt/Jose%20Afonso.html

http://marius708.com.sapo.pt/Cantores%20de%20Intervencao.html


Adelino Manuel M. de Pina *
Comissão em Angola (1970/1972)

Entrei para a vida militar em Janeiro de 1969, fiz a recruta no RI 10 (Aveiro), cidade que me deixou gratas recordações. O meu primeiro vencimento (o Pré como se dizia na gira) foram 28 tostões, sim repito 28 tostões, que fui meter numa caixa das esmolas numa igreja da cidade. Pertenci à arma de Artilharia, com a especialidade de Amanuense e fui mobilizado para Angola pelo RAL 1 (como rendiação individual) em Agosto de 1969, mas só viria a embarcar em Fevereiro de 1970, depois de ter 13 embarques marcados e logo a seguir desmarcados. Finalmente no dia 7 de Fevereiro de 1970, foi mesmo o dia da partida, viagem efectuada num barco de apoio de guerra chamado "São Brás". Viagem atribulado que durou mais de um mês, com avarias e uma explosão da caldeira do barco em pleno alto mar, com desvio forçado para a Madeira, onde ficamos 10 dias para reparação do barco. No seguimento da viagem fomos parar a Cabo Verde onde estivemos 3 dias, e pelo meio e em pleno alto mar o surgimento de uma doença contagiosa, que levou alguns a estar de quarentena durante dias.
Por fim a chegada a Angola em Março de 1970, fui parar à cidade do Luso (hoje Luena) situada no Leste de Angola, onde fiz toda a minha comissão no CZML (Comando da Zona Militar Leste) . Posso dizer que fui um privilegiado em ter ficado por ali e sendo a cidade do Luso um ponto estratégico do Leste, tive a sorte de me encontrar com muitos amigos e conhecidos e também alguns amigos loriguenses os quais irei aqui registar.
Escusado será dizer que era sempre uma alegria quando nos encontrávamos os loriguenses e no meio de umas frescas bebidas refrescando a garganta, vinha a nós as recordações da nossa terra, principalmente recordando os nossos tempos de meninos. É precisamente neste prisma que aqui faço este meu síntese de registos, recordando principalmente gente de Loriga, mas muito mais e mais fica por contar dessa minha passagem pela Guerra do Ultramar
.

No Barco tendo ao fundo a cidade do Funchal-Madeira

- Já agora conto o que passei em Cabo Verde na ilha de São Vicente, na cidade do Mindelo, onde estive a quase às portas da morte. Numa "patoscada" e perante tanta lagosta à minha frente, ignorei a grave e grande alergia que tenho ao marisco e daí não me contive e comi tão bom petisco à minha frente. E pronto, foi a quase o fim da minha vida. Devo aqui recordar como agradecimento os magníficos médicos que iam no barco "São Brás" que levado a toda à pressa para lá me conseguiu salvar, ao fim de algumas horas.

- No serviço militar era simplesmente conhecido por PINA, no entanto, tinha por hábito dizer que quando passassem na minha terra e me quisessem procurar, seria importante dizerem que eu pertencia à família dos "Palhas" porque assim era mais fácil a identificação e chegar até mim, aliás, isso várias vezes aconteceu.

Eu e o Carlos Conde no Luso (1970)
O primeiro loriguense que encontrei, estava eu ainda à poucos dias no Luso.
Pertencia a uma companhia de engenharia e estava a poucos meses de acabar a
comissão. Sabendo que no nosso refeitório se comia mal, logo no domingo
seguinte veio buscar-me para ir comer na sua unidade, onde se comia lá bem
e por sorte nesse dia havia até rancho melhorado. Pois nesse domingo
consolei-me, visto que já algum tempo que não comia tão boa refeição.

Numa Sanzala perto do Luso (1971)
Uma ajuda à comunidade ajudando a moer
a mandioca para o"pirão"

Com o amigo Carlos Palas (Pirola) já falecido.
Com a deslocação do Batalhão do Carlos para outras Zonas, de passagem pelo Luso lá fui à procura do amigo Carlos e lá o encontrei e como tal foi uma festa. Estivemos poucas horas juntos, mas foi o suficiente para ainda tirarmos esta foto e podermos conversar muito, recordarmos Loriga e as pessoas, em que a sempre boa disposição do Carlos contagiava tudo em seu redor e assim passamos um belo momento que recordo com saudade.

Dondo 1970
Eu com o macaquinho que era um encanto.

Com o Adriano Amaral (Luso 1971)
O Adriano estava de passagem pelo Luso e
por sorte veio ter ao CZL, a minha unidade, onde
nos encontramos e registamos o nosso encontro.

Com o Carlos Costa (Luso 1971)
Passei alguns dias com o Carlos no Luso,
onde estava também de passagem.
Belos momentos que passamos juntos e era
raro dia que não fazíamos uma "Miga"

Com O Luís "da Marta" (Luso 1970)
O nosso encontro foi uma coincidência e deu-se
no cinema do Luso. A companhia do Luís estava
de passagem, pois já tinha sofrido bastante no
mato naquela zona do Leste, por isso mereciam
ir para o interior locais não abrangidos com a guerra.
Foi o Luís que me disse que trabalhava naquela região
Ti António (Benito) e não é que eu e ele o fomos procurar
e descobrir numa localidade muito perto do Luso.
Foi uma festa para ele ao encontrar seus conterrâneos.
O Ti António (Benito) era motorista na empresa de
construção de estradas em Angola.

Com o Fernando Conde (Luso 1971)
Coincidências do destino passado um ano de me encontrar com o Carlos Conde, veio parar ao Leste o seu irmão Fernando e o destino o trouxe até ao Luso, para internamento na Enfermaria militar do Hospital da cidade, quase todos os dias o lá ia ver, inclusive, com não se comia bem lá no hospital, leva-lhe eu alguma coisa para comer. Como era proibido levar coisas para dentro do Hospital, ia pelas traseiras e dava-lhe pela janela e assim o amigo Fernando lá se consolava. Depois de restabelecido lá voltou para a sua companhia no mato, nunca mais o voltei a ver por lá, só ao fim de muitos anos o voltei a ver em Sacavém.

Junto ao rio na cidade do Luso (1971)
"Venham a mim as criancinhas"

Momento para a leitura lendo uma carta
de uma madrinha de guerra das várias que tinha.

Os militares também comem e na hora das refeições
as mesas eram requintes da ocasião, como se vê,
eram mesas chiques com as melhores louças. Mas
não é que nos sabia bem comer nestes pratos de alumínio.

Com um militar Catanguês, meu companheiro de
viagem de Luanda ao Luso, numa altura que me
desloquei a Luanda para ali levar os corpos
de 4 camaradas militares falecidos em combate na
Zona Leste, para os seus corpos seguirem para a Metrópole.
Foram dois dias de viagem e apesar do militar catanguês
só falar francês, lá nos entendemos e ficamos até amigos.

Luso 1970
Esta foto foi tirada no dia que estava para seguir
para Luanda em missão, levando os corpos
de 4 camaradas mortos em combate na Zona Leste

Luso Ano de 1970
Nessa altura fumava muito, mas era só para
entreter e para passar o tempo, nunca cheguei a ter verdadeiro vício

CZML Ano de 1970
Apesar de ter uma arma distribuida nunca a utilizei.

Eu com outro colega chamado Rocha - Cidade do Luso Ano de 1971
Durante algum tempo cheguei a acumular trabalho civil,
trabalhando no Café, Bar e Restaurante do Cinema Luena.
Era de aproveitar certas oportunidades e eu aproveitei.

***

Alguns registos mais


- Em 1970, de passagem por Nova Lisboa (hoje Huambo) e sabendo que viviam ali a senhora Floripes do Fermino e marido senhor António, lá arranjei maneira e fui ter com eles à praça onde vendiam, foi uma alegria ver pessoas de Loriga, ficando para mim as gratas recordações de me terem dado da melhor fruta que lá tinham, que me fizeram bastante jeito na viagem que ainda tinha pela frente. O senhor António, marido da senhora Floripes faleceu poucos anos depois.

- Um certo comércio de mercado negro de diamantes era uma prática de negócio no Leste de Angola, nomeadamente no Luso (hoje Luena), sendo do nosso conhecimento grandes fortunas que existiam conseguidas através desse meio. Em certa forma, os militares também se envolveram nesse negócio, apesar do risco que se corria, sabendo-se até de alguns militares, que com alguma sorte chegaram a ganhar bom dinheiro.
Como conhecimento de causa, eu próprio posso falar nisso, por me ter também envolvido chegando ao ponto de em determinada fase andar mesmo obcecado, conhecia até praticamente todos os "passadores" aqueles que compravam os diamantes e depois levavam para Luanda onde eram depois também vendidos a outros negociantes, enfim, era um negócio arriscado e de certo secretismo, ainda cheguei a fazer uns negociozitos, infelizmente em pequena dimensão, que ao fim e ao cabo deu apenas para umas "migas" ou umas pequenas lembranças que trouxe depois para Metrópole.
Pelas Sanzalas ou "kimbos" como assim se dizia relacionado aos bairros periféricos do Luso (Luena) tinha até muitos conhecimentos e amizades que me procuravam de dia ou de noite, no entanto, a sorte não era comigo. Lembro até uma vez, que um desses conhecimentos me procurava pela cidade, perguntou então a um colega por mim, este sabendo que a procurarem-me representava alguma coisa, por meio de umas bebidas conseguiu que esse lhe entregasse a mercadoria, por uma bagatela. Era apenas uma pedra e dias depois vim a saber que lhe rendeu bom dinheiro. Escusado será dizer que ainda nos zangamos, mas depois tudo passou e tudo foi esquecido. Era assim a vida dos militares em que a amizade por vezes superava tudo.
Nessa altura estava tão familiarizados com as qualidades das pedras, que sabia até distinguir o que era bom e mau, claro que, depois era confirmado por meio de alguns teste tradicionais que se faziam. Certo é, ter ficado nas minhas memórias, que pelas minhas mãos me passaram algumas pedras preciosas, que depois lapidadas em diamantes, provavelmente, foram parar a pessoas finas e abastadas.

- Também me encontrei no Luso em 1971 com o José Mário (Benito) e em Luanda em 1972 encontrei-me com o Horácio Simão, que estava a chegar e eu estava já de regresso à Metrópole, só que nestes casos não tenho registo de foto.

- No Natal de 1971 falei na Televisão nas mensagens de Natal, é de calcular a alegria que foi para a família, por isso também posso dizer que já apareci na televisão.

Nota complementar

- Ao fazer aqui este minha síntese de registo, resolvi fazê-lo sintonizando a maioria em gente de Loriga, documentando assim recordações. É evidente que muito mais ficou por contar, dessa feita noutra dimensão, no entanto, estes meus registos fazem parte da minha passagem pela Guerra do Ultramar na cidade do Luso (hoje Luena) onde passei mais de dois anos da minha vida (Março de 1970 até Abril de 1972), que apesar de tudo tenho ainda na recordação.

- Regressei à Metrópole nos finas de Abril de 1972, viagem de regresso efectuada em avião. Depois de uns dias na Amadora onde vivia, fui a Loriga visitar a restante família. Cheguei num Sábado dia de feira, de imediato voltei a ver uma imagem que desde o dia de São João de 1968 me acompanhava os pensamentos a todos os momentos e, que o destino fez que passasse a estar ao meu lado até hoje, ou seja a minha mulher
Lena que também aqui merece figurar, como minha homenagem.

* Adelino Pina

http://LesteDeAngola.weblog.com.pt/

http://www.guerracolonial.org/

http://LusoLuena.home.sapo.pt/Dedicatoria.htm


Indice

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